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Fotografia: Cláudio Ivan Fernandes
Publicado a: 14/06/2024

11 faixas de rap sobre beats obscuros.

Il-Brutto sobre FUSCO: “Foi um ambiente nocturno que me inspirou para este álbum”

Fotografia: Cláudio Ivan Fernandes
Publicado a: 14/06/2024

Chegou o dia de FUSCO, o novo álbum de Il-Brutto, produtor que se tem vindo a destacar ao longo dos últimos anos e que agora concretiza de forma mais séria essa trajectória com o lançamento deste disco repleto de convidados marcantes. 

São 11 faixas inspiradas em ambientes nocturnos e obscuros que puxaram pela caneta quente de nomes como Holly Hood, 9 Miller, Blasph, Nerve, Tilt, Bambino, xtinto, Ângela Polícia, No Money, Jack Crack, Kaps, Amaral e El Loko.

Em entrevista ao Rimas e Batidas, Il-Brutto desvenda o processo de construção do álbum, fala sobre as ambiências e imagens que o inspiraram e antecipa os próximos passos.



Como é que começaste a pensar no álbum? Em termos conceptuais e da linha que pretendias ter? Dá para perceber que te preocupaste em apresentar uma linha sonora coesa.

Foi um processo em construção desde 2019, foi quando tive a ideia. Inicialmente era para ser um EP, com uma faixa de Escalpe, uma do Tilt e outra do Nerve.

Iria ser algo mais ligado ao universo de Escalpe, então.

Sim, uma coisa mais nossa. Entretanto comecei a ver a possibilidade de tornar isto numa coisa maior e, à medida que fui conhecendo outros rappers, integrei a malta no projecto e foi um processo em construção. Idealizei o FUSCO a partir de 2020, antes da pandemia começar já tínhamos a primeira faixa, a “100 Problemas”; e também já tinha conhecido o Holly Hood, o primeiro convidado fora desse núcleo de Escalpe. Fui idealizando a coisa. Já tinha uma vibe nocturna pensada, que foi algo que me inspirou desde sempre. 

Como é que pensaste nessa linha instrumental que representa este FUSCO?

Quando comecei a produzir, para aí em 2017, muitas vezes ia ouvir os meus beats para o carro à noite. Dava voltas pela cidade, por onde fosse, ia andar de carro a ouvir os beats. Às vezes ia com amigos, parávamos em parques de estacionamento à noite. E essa vibe marcou-me um bocado, a cena de ouvir música à noite, e o próprio ambiente nocturno, a estética, inspirou-me para querer captar isso para um álbum. Foi esse fascínio meio abstracto que me levou para isto. 

Foi muito natural o processo de ires fazendo beats e percebendo quais é que faziam sentido entrar no álbum? Ou estavas a produzir já todos estes instrumentais a pensar mesmo no disco?

A maior parte deles foram pensados para o disco. E na maioria dos casos mostrei um, no máximo dois instrumentais aos convidados. 

Não lhes querias dar muitas opções.

Queria seguir uma linha restricta e queria ser eu a direccionar bastante a cena, e acho que é uma das coisas que também distinguem este projecto. Há uma linha muito demarcada. Por isso, sim, fui fazendo os beats já a pensar para o álbum; mas nalguns casos foi preciso fazer adaptações. Mas como é uma vibe que me é muito natural, tinha uma data de beats nesta onda que deu para ir adaptando para chegar aos resultados finais.

E uma característica que une todos os convidados é que são todos conhecidos pelo talento para a escrita. Era mesmo esse o teu objectivo?

Sim, esse foi o meu primeiro critério para o álbum. Obviamente são todos artistas de quem gosto, em quem reconheço valor artístico, e são rappers. Isto é um álbum de rap e foi nesse sentido que o fiz, queria fazer um álbum inteiramente de rap, com muita punchline… Quem aprecia rap sabe o skill que está ali. 

Puxaste pelos MCs, nesse sentido?

Acho que sim, nalguns casos tentei ser um elemento disruptivo. Ou seja, trazer beats que, à partida, a malta poderia não esperar ouvir aquela pessoa ali. O caso da “100 Problemas”, do Nerve, acho que foi assim a primeira, por ser um momento diferente na cena dele, e ele também mostrou um lado novo. O Blasph e o 9 Miller são uma mistura, num beat diferente… Sabemos que os dois facilmente casam nessa vibe mas ninguém estava à espera. E foi nessa onda que fui sempre pensando em meter a malta em ambientes diferentes. Pus o Jack Crack numa vibe mais trap quando ele é muito mais do boom bap…

Também juntaste o Ângela Polícia e o No Money, que não é uma dupla nada óbvia…

Não, mas sempre achei que iria funcionar super bem, porque além do hype que eles conseguem trazer à música, são dois artistas que casam muito bem e acho que resultou.

Foi um processo de ires pensando, de ti para ti, em quem faria sentido convidar, de forma estratégica e calculada? Aconteceu também de forma orgânica, de pessoal que chegou ao projecto por causa de outros artistas com quem já estavas a trabalhar?

Foi um bocado os dois. A sorte de ir conhecendo a malta… O Holly, como disse, foi dos primeiros que conheci. Foi num concerto do Nerve em que ele esteve connosco.

E acabaste por ter a Superbad toda no álbum.

Toda, até o Here’s Johnny me deu uma grande ajuda, tenho mesmo que lhe agradecer muito, porque nesta recta final captou uma data de malta e ajudou-me a fechar o álbum. Mas, sim, fui conhecendo a malta e sondando para perceber quem é que eu poderia adicionar à festa, digamos assim. Conheci alguns através do Holly, em concertos, e outros convidei-os directamente para o álbum e expliquei-lhes o que estava a fazer e a malta aceitava ou não.

Pelo que estás a explicar, o disco levou alguns anos até ficar mesmo pronto. Teve a ver com um processo criativo perfeccionista da tua parte? Ou de coordenar tudo com os convidados e conseguir que eles escrevessem, gravassem e fossem enviando as coisas?

Sim, foi mais nessa onda… Eu por acaso produzo muitos instrumentais e estava com um grande fluxo de trabalho, mas é isso, envolve muita gente e foi um exercício saber esperar pela malta e acreditar que iria dar certo. Também quis celebrar com o evento na Musa de Marvila porque este é um momento diferenciador em relação ao que se costuma fazer aqui em Portugal e acho que é importante celebrar isso e juntar a malta toda, porque há muitos rappers que não se conhecem, e sei que curtem do trabalho uns dos outros. Às vezes a malta acha que há bué egos… Os egos existem, mas nem sempre, também há um lado positivo que tem de ser celebrado. E, ainda por cima, malta toda com skill de escrita de rap, com caneta… Têm todos esse knowledge e sei que todos, de alguma maneira, reconhecem esse valor uns aos outros. 



Durante estes anos obviamente produziste outras coisas e para outras pessoas, mas sabias bem diferenciar entre aquilo que estavas a fazer para o álbum e outras que seriam diferentes, mesmo que também partilhassem do teu ADN sonoro?

Exactamente. Havia algumas faixas que ficariam bastante bem no álbum, e eram beats para o álbum, que foram usadas fora, como as faixas que produzi para o Kroniko. Especificamente, o beat do “Totò Riina” estava pensado para o álbum mas encaixou perfeitamente na vibe e no EP dele, por isso fiquei super contente com essa faixa. Das que saíram foram essas, as outras que acabaram por ficar de fora do álbum para saírem noutras coisas ainda não posso falar [risos].

E, do que podes falar, já estás em trabalhar em coisas novas? Com Escalpe, por exemplo?

Escalpe estamos a trabalhar, mas inserido no meu álbum com o Nerve. Estamos a trabalhar num disco, que está a andar bem e estamos bem avançados na cena. Pelo menos na parte conceptual. Talvez para o ano ou já este haja qualquer coisa. Também estou a trabalhar com o Kaps, temos aí faixas para este ano, tenho feito muitas coisas com ele dentro da Superbad, até em colaboração com o Here’s Johnny, um produtor que admiro bastante e que tem sido quase um mentor, por vezes, por me dar dicas e também me inspirar. O No Money também tem umas cenas minhas…

E claramente gostas desse processo colaborativo de produzir para rappers ou com eles próprios.

Sim, adoro, para mim é o que faz sentido. E ando aí a sondar mais rappers para se juntarem a este processo. 

Para juntares ao currículo?

Exactamente [risos], ainda existem alguns para juntar, embora a minha lista com este álbum… Dos primeiros que ouvi e gostei, estão praticamente todos aqui. 

Mas vês-te a fazer, a longo prazo, outros álbuns nesta linha? Com um conceito musical e estético e a convidares rappers de que gostes e que tenham esse talento para a escrita?

Sim, não sei de que maneira, mas é um tipo de conceito que é fácil de revisitar e explorar e ter alguma temática… Já pensei várias vezes em fazer um EP mais temático, um trabalho mais curto, em que desse para explorar vibes diferentes. Agora tenho de pensar em reinventar-me também, depois disto. O álbum com o Nerve na verdade já tem uma reinvenção bastante grande.

Como é que fazes esses processos de transição? Inspiras-te em coisas exteriores à música? Tentas cenas diferentes e logo vês o que sai?

É um bocado dos dois. Inspiro-me muito por cenas visuais. Não quer dizer que eu esteja a ver um filme, e me sinta inspirado e vá fazer uma cena super inspirada num filme; mas a ambiência é algo que me inspira bastante para criar. Neste álbum foi uma ambiência nocturna, imagens com pouca luz mas com brilhos intensos… É super abstracto dizer isto, mas foi o que me inspirou a criar os beats e, quando oiço aquilo, leva-me para alguma imagem. É um bocado o meu processo ultimamente. Criar sons que me transportem para uma ambiência forte. Com o Nerve houve outro tipo de ambiência que me levou para aquelas sonoridades, posso dizer que é mais dark, agressivo e infernal do que o FUSCO.

Mas são o teu tipo de ambiências, no fundo, sempre foram.

Exactamente, é um bocado a minha onda. Vou-me tentando reinventar um bocado, porque estamos sempre a evoluir e a estética tem de manter um lado refrescante. Penso bastante nisso e às vezes também fiz isso para este projecto beats que descarto porque acho que já não acompanhavam os anos do álbum. Isso também acontecerá com outros projectos, é normal. E há beats em que por vezes faço quase um remix para lhe dar uma roupagem mais moderna. É algo que é preciso ir verificando porque estamos sempre a evoluir e a ver as cenas de outra maneira. E é sempre preciso ter isso em conta: como é que avanço para o próximo projecto, querendo ter coisas novas mas sem perder a essência daquilo que me caracteriza? É por aí.


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