Viveiro de algumas das manifestações rítmicas mais ricas do nosso tempo, HHY & The Macumbas continuam a abrir novos horizontes. Com um sólido percurso de quinze anos, o colectivo sediado no Porto incorpora visão e arrojo num léxico em constante mutação. Entre a percussão energizante, os sopros xamânicos, o assombramento dub e o manto da eletrónica livre, resulta uma hipnótica experiência sonora de pura sinestesia e estranhos mundos imaginários. Uma encarnação singular de música feita por cá — e que se expande além de quaisquer fronteiras geográficas ou estilísticas.
Bom Sangue Mau foi editado há escassos dias e será apresentado, em primeira mão, este sábado, dia 8 de Junho, no Teatro do Bairro Alto/TBA. O Rimas e Batidas teve a oportunidade de trocar palavras com o mestre de cerimónias, Jonathan Uliel Saldanha que nos falou sobre este novo álbum e o que esperar do concerto que se avizinha.
Como descreverias estes quinze anos ao leme de HHY & The Macumbas?
Estes quinze anos têm sido uma jornada intensa e evolutiva. Começámos como um grupo de amigos e colaboradores, explorando estratégias de dub e deslocamento polirrítmico, e ao longo do tempo, a ensemble teve múltiplas formações que permitiram experimentar e crescer de forma fluída e sempre diferente. Cada fase trouxe novos desafios e descobertas, sempre mantendo a nossa visão sonora distinta. A nossa música passou por várias mutações criando uma experiência única tanto para nós quanto para o nosso público.
Do que terá sido o intuito inicial da banda, até hoje, o que achas que mudou — e o que continua a inspirar-vos?
O intuito inicial era criar uma forma de “música tradicional” própria, uma assinatura sonora específica ao nosso grupo de amigos e colaboradores, uma linguagem. Isso continua a ser um pilar fundamental. No entanto, a nossa abordagem expandiu-se, incorporando influências globais e locais de maneiras inesperadas. Continuamos inspirados por ritmos densos, pressão sub grave e a relação visceral com o som que transcende a cultura e o tempo. Mas os instrumentos mudaram radicalmente e com eles a forma de tocar, o timbre e a sintaxe.
Ao longo do vosso trabalho discográfico paira uma certa filosofia especulativa “em redor das coisas”, e em específico, ao objecto artístico que laboram. Este elemento parece orientar um pouco o caminho musical que têm vindo a criar. O que vos atrai nesta ideia e como encontram forma de potenciá-la?
Somos atraídos pela ideia de criar mundos sonoros que existem num espaço periférico, na margem das grandes narrativas impostas pelas “corporações da cultura” (festivais, streamings, média etc.), para nós a música não é apenas um formato predefinido de expressão e negócio, mas um espaço a habitar, uma fronteira entre o familiar e o desconhecido. Isso permite-nos desafiar as nossas expectativas e criar algo que é simultaneamente intangível e profundamente impactante.
Por outro lado, o teu trabalho a solo é igualmente vasto e intenso, frequentemente explorando os limites entre a arte sonora, visual e o próprio acto performativo. Que diferentes possibilidades e desafios encontras durante os períodos de criação em formato de banda?
Trabalhar em formato de banda traz a riqueza da colaboração e a diversidade de ideias. Cada membro contribui com a sua própria visão e percurso, resultando num som que é maior do que a soma das partes. Em contraste, o trabalho a solo permite-me explorar alguns dos mesmos territórios mas com outros mecanismos, por vezes totalmente não sonoros. Posso aprofundar algumas ideias sem a necessidade de conciliação. As ideias mais profundas atravessam facilmente o privado e o colectivo sem qualquer regulação.
Entretanto, algures em 2022, saiu um disco chamado Lithium Blast, numa variação HHY & The Kampala Unit durante uma residência no Uganda, dois anos antes, e a que se seguiram várias atuações. Conta-nos um pouco como tudo aconteceu e o que guardas dessa experiência.
Lithium Blast foi um disco muito especial, nascido de uma residência no Uganda com um novo ensemble HHY & The Kampala Unit. A construção com músicos locais de um novo colectivo e a imersão na cena musical de Kampala trouxe uma nova dimensão à minha forma de produzir e compor, que depois se estendeu às várias colaborações com a editora Nyege Nyege (Full Miziki, Arsenal Mikebe, entre muitos outros). Desde essa altura que temos atuações regulares, igualmente intensas, permitindo-nos explorar novas ideias constantemente em palco. Temos um novo disco de HHY&TKU a sair este ano pela Nyege Nyege.
Bom Sangue Mau dá nome ao novo disco, agora editado. Existe algum enquadramento conceptual por detrás do título? E em que forma se distingue dos restantes trabalhos?
Bom Sangue Mau reflete um conceito de dualidade, explorando as tensões entre forças opostas. Este álbum se distingue pela forma como foi gravado, como uma performance ao vivo sem público, capturando a energia e urgência de nossos concertos. Essa abordagem conferiu ao disco uma sensação crua e imediata, diferente dos nossos trabalhos anteriores. É também o fim do ciclo acústico, após todos estes anos e incontáveis momentos auspiciosos entramos num novo ciclo de mutação.
Além disso, uma particularidade: o álbum foi gravado em cima de palco, num teatro vazio, embora de conteúdo cénico estruturado. O que motivou esta decisão criativa? Em que difere, em termos de resultado final, de um contexto mais tradicional de estúdio?
A decisão de gravar no palco de um teatro vazio foi motivada pelo desejo de capturar a essência de nossas performances ao vivo. Queríamos que o ambiente, as luzes e a atmosfera do palco fizessem parte da gravação, conferindo-lhe uma vibração difícil de replicar em estúdio. A consequência é um álbum urgente e visceral.
Gostava que nos falasses também um pouco sobre a Horror Vector e como Bom Sangue Mau inaugurou assim o seu catálogo editorial.
Horror Vector é uma nova plataforma editorial, dedicada a explorar os vários territórios sonoros onde estou envolvido. Bom Sangue Mau é o primeiro lançamento sob este selo, representando a nossa visão de criar obras exploratórias que acelerem vectores de mutação. Esta editora permitirá uma maior liberdade criativa e a oportunidade de colaborar com outros artistas interessados na navegação destes eixos.
E para terminar, o que podemos esperar deste concerto no TBA?
O concerto no TBA será a manifestação deste novo ciclo, uma jornada intensa porque transformadora. Estamos super motivados para partilhar estas novas ideias.