Era sexta-feira, 19 de Julho, e havia a gente necessária para preencher um espaço belíssimo — o pátio quebrado do gnration. Escuta-se que é o “potencial espaço mais fixe, de sempre, para assistir a concertos.” Salvo a hipérbole, é bem ajustado a quem se sabe acomodar às vicissitudes topográficas do mesmo e também bastante agradável ao fim que lhe dão. “O Porto não tem nenhum lugar assim”, foi outra das frases escutadas nos momentos que antecederam o espetáculo e recordamos o que não foi feito no apelidado Centro Cultural STOP.
Já embrenhados num Verão que nos parece ser o mais surrealista de sempre, somos chamados a assistir a goat (jp). Tal como a época estival, não existem meios termos. Ou chove e está frio, ou está um calor avassalador a fazer lembrar os dias do fim do mundo. Assim profetizava este calor plapável da cidade que goat (jp) dariam um concerto sem meios termos. Não houve espaço entre o intenso, assoberbado pasmo do que estávamos a assistir e o momento de silêncio tenso que antecedia o arranque para a próxima vertiginosa viagem, nas paragens de um metro que passava no bairro do Inferno.
Interrompendo a conversa de pátio que se tinha instalado, os elementos de goat (jp) assumiam as posições junto a cada um dos instrumentos. Entre o silêncio deixado pelos aplausos e o preparar da execução, o ruído típico de uma guitarra sem terra encheu o espaço, como o bom rock tornou tradição, não permitindo ao silêncio a sua existência e criando a tensão antes da explosão. Iniciava-se o concerto.
Aos primeiros segundos de música, dir-se-ia que estávamos a ouvir “Wardrobe” dos sul-coreanos Jambinai. Será o ritmo inscrito nos mais profundos códigos de ADN ou a cultura somática que se inscreve em formas que ainda não percebemos, dando razão a Lamark, unindo o que à superfície é separado. O palm mute de Koshiro Hino tomou a liderança da base rítmica que conduziu o concerto que, apesar dos dois percursionistas presentes, a guitarra era, naquele dia, um instrumento de percussão com cordas. A apresentação de Joy in Fear estava aberta e seduziu grande parte dos mais distraídos.
Com a precisão do math rock, as belas paragens à Fugasi e uma união e aproximação executiva improvável de e aos instrumentos, esta banda é, à segunda música, o brilhar cintilante dos olhos neste anfiteatro quebrado. “On Fire” trouxe a sensação de uma umbria maquinaria de fazer noite ao espaço. A forma contratempada do saxofone de Akihiko Ando, num silvar sofrido e distante, dava ao que seria uma música electrónica de dança, se fosse feita pelos modeladores dos tempos atuais. Só que não. Há um grupo de cinco humanos a executar o que normalmente associamos a uma grande máquina industrial, com todo o seu sabor quente, aromático, das engrenagens aquecidas por uma fricção repetitiva.
goat (jp) não trazem uma receita esgotada em cima de si mesma. A prova-lo viria a terceira música onde o gongo tradicional coreano foi o instrumento de eleição de Koshiro Hino, que até então empunhava a guitarra. Não ficamos por aqui: Rai Tateishi, o sublime percussionista da banda, troca os ritmos por apontamento melódicos nesta composição, primeiro com uma flauta de bambu e a seguir por uma flauta irlandesa. Se pudéssemos trazer o mundo do Studio Ghibli ao pátio do gnration, poderíamos acreditar que estávamos a atravessar a planície aquática, na grande viagem de amadurecimento de Chihiro, com o seu amigo Kaonashi. De repente, a música pára e disparam os aplausos e somos chamados à realidade pela humana cerimónia de ovação.
“New Games”, talvez o cartão de visita dos goat (jp), seria a quarta música, e se ninguém tinha reparado em Atsumi Tagami, o nosso baixista de serviço, e Takafumi Okada, o sublime baterista deste projecto, seria hora de perceber a genialidade que estava a acontecer em palco. Pouco se pode dizer sobre a simplicidade da perfeição, sem corrermos o risco de nos espalharmos no labirinto da qualificação e adjectivação e estragar o humilde esgar da sublime execução, onde o que é tão difícil e complicado parece tão fácil e imediato apesar do sabor a magia.
“std” viria a ser o derradeiro tema da noite. Apesar do público clamar por mais uma música, foi com a habitual graça nipónica que Koshiro Hino pediu desculpa e, timidamente, do SM57 apontado ao amplificador da sua guitarra, explicou que a banda não tinha mais nenhuma música preparada para ser tocada, para uma tristeza compreendida do público feliz.
Aquela foi, sem dúvida, a melhor música da noite… E o que poderemos acrescentar ao que já foi escrito sobre as restantes faixas tocadas? Nada. goat (jp) existem porque o universo existe e há coisas que têm de existir para que o valor da humanidade seja autenticado em contrapeso com a maquinaria inventada para dissolver a mesma humanidade num batido da apropriação consumista do que é obra prima e a aparente esgotada capacidade criativa.
Arredar do pátio é que já foi mais difícil. Ficou a felicidade e o entusiasmo de termos tido a sorte de assistir a goat (jp). Que bela forma de acabar um ciclo de programação, que bela história que não saberemos contar direito.