Não há melhor slogan para este artigo do que “a música portuguesa a gostar dela própria”, aludindo ao projecto de Tiago Pereira que, ao longo dos últimos 14 anos, tem vindo a fazer recolhas dos cantares e instrumentos tradicionais por todo o território nacional. Neste caso, falamos da nova vida que os Karetus deram a “Laurinda”, tema do cancioneiro regional algarvio que Vitorino popularizou na década de 80. Agora, com uma nova roupagem, uma letra actualizada e a presença da voz feminina de iolanda, é um tema renascido — e um aperitivo para o álbum que a dupla de Carlos Silva e André Reis está a preparar para o próximo ano, Modas.
Talvez seja mais fácil começar pelo início. Em 1962, Fernando Lopes Graça e Michel Giacometti estavam a fazer recolhas de canções populares pelo país. Foi na povoação de Alferce, na serra de Monchique, que descobriram a balada “Ó Laurinda, Linda, Linda”, sobre uma mulher adúltera que quase era apanhada em flagrante pelo marido quando este voltava de viagem. Registaram o tema na voz de Mariana Vitorino.
Quase duas décadas depois, em 1981, o cantor Vitorino gravava “Laurinda” para o seu álbum Romances. Tornou-se, com o passar do tempo, numa das canções mais emblemáticas do seu repertório.
“É um tema que eu ouvia em casa, o meu pai tinha o Romances do Vitorino”, lembra Carlos Silva. Chegamos ao novo milénio com a história dos Karetus. Dupla de música electrónica formada em 2010 por dois amigos do Cacém, desde cedo que mostraram ligações à tradição nacional — até graças ao próprio nome do duo e aos fatos que ostentavam, referenciando as personagens e máscaras populares muito associadas ao Carnaval de Podence, na região de Trás-os-Montes.
Embora tenham sido criados na Linha de Sintra, têm raízes familiares diversas, de Trás-os-Montes ao Alentejo, com passagem pelo Minho. “O nosso nome, esta ideia dos caretos, e o nosso primeiro EP que se chama Entrudo (2012), embora seja música electrónica mais anglo-saxónica… O nome Karetus tem a ver com a mãe do André, porque ela tem um grupo juvenil de teatro e fez um entrudo chocalheiro no Cacém que ficou na nossa memória para sempre. Foi o nosso primeiro contacto com estas figuras”, conta Carlos Silva. “Temos esta mistura toda em nós”, acrescenta André Reis. “Crescemos a ir às festinhas destas zonas e a levar com estas músicas e tradições todas.”
Ao longo dos anos, tornaram-se populares com uma electrónica mais convencional e pop, mas também pelas inúmeras remisturas que foram fazendo de bandas sonoras ou canções-tendência, bem como pelas actuações enérgicas e joviais que os levaram aos palcos de todo o país. Colaboraram com rappers, bandas, cantores e produtores, de Carolina Deslandes a Pongo, de Romeu Bairos aos Wet Bed Gang, de Agir a Deejay Télio, de Diogo Piçarra a Yuzi, de Bárbara Bandeira a Dino D’Santiago, de Diego Miranda a Borgore, de Holly ao Padre Guilherme, dos Supa Squad aos Hills Have Eyes; claramente tentando chegar a vários públicos, provando versatilidade, abraçando novas tendências e desafios.
Foram dando sinais de que se queriam envolver de alguma forma com a música tradicional portuguesa. Em Piñata, disco de 2015, exploravam os sons das gaitas de foles e dos bombos em “S.O.S.”, um tema electrónico com SP Deville. Cinco anos depois, assinavam um remix oficial de “Burra”, cantiga de Sebastião Antunes & Quadrilha com a participação de Luís Peixoto e dos Galandum Galundaina que se tinha tornado imensamente popular. Também ajudava o facto de Sebastião Antunes ter sido colega de escola do pai de André Reis; a ligação estava feita.
Nos últimos anos, tem sido notória a influência das tradições portuguesas na música pop e urbana contemporânea que se faz por cá; o resultado de um movimento “Global-Local” que tem sido internacional, que vai desde a explosão do afrobeat ao fenómeno da música latina, do bombástico reggaeton ao flamenco moderno de ROSALÍA. A vontade de explorar o cancioneiro tradicional português foi crescendo nos Karetus, que começaram a preparar um disco baseado nesse conceito. “Laurinda” é o primeiro single.
“Nós sempre quisemos pegar nesta e noutras músicas do cancioneiro português. Andámos a ouvir muitas recolhas antigas e estamos a dar o nosso twist, a nossa roupagem. Para nós tem sido incrível este processo todo”, explica Carlos Silva. “Isto sempre foi uma ideia, desde o início do nome”, acrescenta André Reis. “Agora estamos na fase ideal para o fazermos. E sempre sentimos que tínhamos, até pelo nosso nome e pelos trajes que usamos, de fazer algumas destas canções… E fomos percebendo que as pessoas nos pediam mais coisas desse género. Agora optámos por ir a fundo e tem sido um gozo tremendo, temos descoberto coisas incríveis”, diz, referenciando o projecto Megafone, de João Aguardela. “Ele tropeçou na música tradicional portuguesa e fez um projecto dedicado a isso. Nós fomos tropeçando também desde que nascemos.”
Os Karetus têm feito questão de não só descobrir e investigar estas músicas regionais, mas também de visitar os próprios sítios. Estiveram na zona de Monchique, durante o processo criativo de “Laurinda”, tal como foram ao Redondo, a vila alentejana a que Vitorino chama casa. “Apanhámos o final da vindima e estavam a ser entoados cantes de trabalho que também fazem parte do nosso disco, neste caso sobre a vindima. Quando vamos a estas aldeias, aprendemos muito sobre como é que a música funciona na vida das pessoas, a função que a música tem em juntar as pessoas. E é isso que temos de tentar pôr neste disco. Queremos juntar novamente as pessoas em torno deste imaginário português”, remata Carlos Silva.
View this post on Instagram
A nova vida de “Laurinda”
Quando fizeram a nova versão de “Laurinda”, convidaram Vitorino, que não conheciam, a ouvir o tema. “Foi um processo super fácil”, conta Carlos. “Ele chegou ao nosso estúdio, metemos aquilo a dar e ele disse logo: ‘Quero gravar já.’ Foi muito rápido e inspirador. Ficou logo feito. O Vitorino é uma máquina e o processo foi incrível.”
Os Karetus deixaram o sample que tinham feito da gravação de Vitorino nos anos 80 por baixo, de forma subtil, para envolver a nova gravação do cantor, feita hoje, com os seus 82 anos. “É muito engraçado, ele disse-nos que nunca imaginou fazer um dueto com ele próprio com 45 anos de diferença”, conta André Reis. “Disse logo que gostava muito da energia de como estava a soar. Nós cortámos um bocado da letra, usámos uma pequena parte da original, e ele adorou. Mas disse que sempre que cantava a ‘Laurinda’ ao vivo sentia que havia uma voz feminina a responder-lhe. Até porque a letra original inclui a parte da mulher a responder ao homem. E veio também daí a ideia dele de acrescentar uma voz feminina.”
iolanda haveria de ser a escolhida. Depois de trabalhar numa nova versão da letra, adaptando a cantiga popular, a artista gravou a sua parte do dueto com Vitorino. “Foi o conjugar de diferentes gerações e ideias que fez esta ‘Laurinda’ moderna, mas que tem muito por base o sample de 1962, a captura antiga do Graça e do Giacometti no Algarve”, explica Carlos Silva. É precisamente esse som que se pode escutar no final da canção, quando tudo o resto se dissipa. É uma “cápsula do tempo” que faz com que o tema esteja em diálogo consigo próprio, 62 anos depois da recolha original registada em Monchique.
Os Karetus contam que estão a apostar nesta fórmula para outras músicas do disco, que irão contar com convidados; mas o álbum também vai incluir faixas instrumentais baseadas em samples ancestrais. “Podem ser as carroças a andar, podem ser os barcos, pode ser tudo. Estamos a buscar várias sonoridades dessas recolhas antigas”, explica André Reis. “Isso está a ser o que leva mais tempo o disco a ser feito, porque estamos a ter este cuidado todo. Vamos mesmo aos sítios de origem das canções, vamos falar com as pessoas todas para termos o máximo de informação possível para respeitarmos o que estamos a fazer e não ser algo que vai destruir o que já aconteceu de bonito.”
O disco ganhou mesmo um cariz “comunitário”, contam, uma vez que, com os contactos que têm estabelecido com os músicos e populações ligadas às canções tradicionais, têm recebido imensas sugestões. “Parece que é quase infinito. Todos os dias, estamos a receber diferentes sugestões e a ouvir e a descobrir coisas. É um disco quase interminável”, acrescenta André Reis. “Mas não estamos com pressa, queremos mesmo que fique bom.”
Neste momento têm 16 temas gravados e gostavam de lançar Modas em Março, embora estejam ainda em pleno processo criativo, tendo em conta a dinâmica que acabaram de descrever. “Agora com este primeiro single, que está a ter um grande impacto, cremos que ainda iremos receber mais sugestões.” Sebastião Antunes é um dos músicos que estão a acompanhar o desenvolvimento do álbum.
O videoclipe da nova “Laurinda” foi realizado por Aidan Kless, que já tinha trabalhado com a dupla de música electrónica em “Maluco”, single em colaboração com os Wet Bed Gang.
“No vídeo temos a tradição com os caretos de Podence, as máscaras; e as senhoritas, um careto mais feminino. Temos também o lençol que reflecte a letra da música. Mas queríamos que tivesse uma componente contemporânea e moderna. E o vídeo ficou muito bom, sentimos que acrescenta mesmo algo à música. Também estamos a recuperar o nosso logótipo original, que mistura a máscara de um careto com um ciborgue que representa o futuro. Passados 14 anos, é quando o logo faz mais sentido.”
View this post on Instagram