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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 12/07/2024

Um electrizante quarteto inglês no interior de Portugal.

Get The Blessing no Guarda In Jazz’24: de Bristol, com amor

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 12/07/2024

A interioridade não é um fardo e pode até, na verdade, ser uma bênção tendo em conta o que significa neste complicado presente habitar metrópoles gentrificadas, vergadas a uma insustentável pressão económica. À descoberta de um novo território, a proposta do Guarda in Jazz revelou-se irresistível quando no cartaz surgiu o nome do quarteto Get The Blessing, que se apresentou no muito agradável espaço exterior do Café Concerto do Teatro Municipal da Guarda no passado dia 10.

Natural de Bristol, um farol criativo da diversa cena musical britânica já há décadas, o quarteto do baixista Jim Barr, do baterista Clive Deamer, do saxofonista Jake McMurchie e do trompetista Pete Judge faz-se de experimentados veteranos cujos currículos incluem basto trabalho realizado ao serviço de gente como Portishead, Radiohead, Roni Size, Massive Attack, Robert Plant e mais uns quantos nomes de idêntico calibre.

Ao vivo, essa impressionante experiência acumulada em incontáveis sessões e concertos nos mais diferentes contextos e projectos e ainda numa considerável discografia própria que se estende já por oito álbuns lançados ao longo de 20 anos manifesta-se numa performance ágil, enérgica, bem humorada e sinceramente entusiasmante. É bem visível, por um lado, o prazer que estes quatro músicos sentem em partilhar um mesmo espaço criativo, sendo óbvia a capacidade de entrosamento afinada ao longo de todo este tempo, e, por outro lado, não é menos evidente o elevado nível de musicianship que cada um dos músicos ostenta.

Antes da apresentação na Guarda, o Rimas e Batidas sentou-se à mesa com os quatro membros do quarteto para uma rápida conversa que em breve será por aqui publicada. Aí, Jim explicou-nos que este concerto se focaria em material de Pallet, belíssimo álbum lançado em 2023, mas que também teria espaço para revisitarem outros momentos da sua discografia: “Apetece-nos voltar a algum do material antigo. Encontramos sempre espaço nesse material para novas abordagens”, garantiu.

O som dos Get The Blessing é uma vibrante mescla de coordenadas, ecoando a rica tradição musical de Bristol, um verdadeiro laboratório de experimentais e avançadas tradições musicais, do pós-rock ao dub, do trip hop às mais disruptivas e modernas aventuras jazz. Não é incomum sentirem-se — por vezes até numa mesma peça — ecos das musculadas aventuras musicais de Mark Stewart, do minimalismo repetitivo Reichiano, da espacialidade do dub, dos polirritmos afrobeat e dos mais exploratórios caminhos de algum jazz de fusão. A sustentar tudo isso está a impressionante secção rítmica de Jim Barr e Clive Deamer, uma coesa unidade capaz de gerar grooves de propulsão desmedida, com o baixista a ser a máquina de riffs de solidez granítica e o baterista a ser o polirritmista que dança em torno desse pulso constante. E depois, por cima, surgem em voos rasantes os altamente processados trompete e saxofone, capazes de soarem ao improvável cruzamento do Miles do período elétrico com o Fela mais incandescente de finais dos anos 70. Um portento.

Os Get The Blessing passaram por peças como “Ambient Black”, “Temperate Red” ou “Heavy Water (French Grey)” do recentíssimo Pallet, oportunidades de coloração criativa do nosso espaço aural com uma música que soa líquida e sólida em simultâneo, sempre inventiva e com uma óbvia componente lúdica bem presente — por muito que o nosso espírito possa vibrar com o lado mais cósmico desta música, é à fisicalidade dos corpos que as baixas frequências apelam. Revisitações de temas de O C D C (álbum de 2011) ou Astronautilus (disco de 2015) também deixaram claro que a fórmula particular que este quarteto tem vindo a apurar ao longo das suas décadas de carreira tem óbvias ressonâncias no presente jazz britânico — um doube bill com Get The Blessing e Ill Considered seria uma verdadeira batalha das bandas entre dois colossos de um riff jazz de tensão eléctrica e liberdade discursiva. Fica a ideia.

Na mais alta cidade do país, o som aventureiro de Bristol arrancou justos e fortes aplausos da preenchidíssima plateia da esplanada do Café Concerto num final de tarde solarengo. E depois, Jake McMurchie saiu a correr para ir ver a equipa inglesa a bater a selecção neerlandesa por 2-1. A sua vontade de apanhar a segunda parte do jogo é bem capaz de ter acelerado os seus últimos solos, colocando-nos a todos por alguns momentos em órbita. Hey, o combustível não importa. O que realmente importa é levantar voo, certo?


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