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Fotografia: Jack McKain
Publicado a: 13/01/2021

Bebam água.

Gabriel Garzón-Montano: “Para mim, fazer música começou como um acto de rebeldia e independência”

Fotografia: Jack McKain
Publicado a: 13/01/2021

“Frenético” é, provavelmente, a melhor palavra para descrever o homem por trás de Agüita, disco que faz parte da lista (a sair em breve) de melhores álbuns internacionais de 2020 para a equipa ReB. Longe daquilo com que o tentam conotar, Gabriel Garzón-Montano assume que a sua principal identificação é com a comunidade humana, como um todo, enquanto tenta trazer uma representação sua do que era o Prince dos anos 80 para os dias de hoje. Talvez por isso condene perguntas como as que lhe foram colocadas pela CNN e rejeite os convites que lhe foram feitos para participar em eventos LGBTQIA+.

O Rimas e Batidas esteve à conversa com o artista através de videoconferência, que, entre o inglês, o espanhol e o francês, nos explicou o objetivo do seu trabalho. Dos pais à cidade de Nova Iorque, cobrimos as principais influências da sua música, o objectivo da voz que arranha os tímpanos em “Bloom” e o impacto de Prince nos seus discos. Das estrelas de rock da salsa dos anos 70 à cumbia e a Chopin, falámos de tudo enquanto GGM se ria e tocava todos e quaisquer instrumentos que tinha à mão no conforto de sua casa.



Sei que a tua mãe era francesa e foi guitarrista, pianista e violoncelista clássica e que o teu pai é um cartoonista político para um jornal na Colômbia, o El Espectador, sendo ele também colombiano. Vives em Nova Iorque, onde cresceste com eles, imagino que tenha sido uma fonte de inspiração musical toda esta diversidade.

Claramente. Em Nova Iorque tive cerca de 15 moradas em bairros muito diferentes, mas a maior parte das vezes que ouvia música era no comboio. Sabes aquelas pessoas muito irritantes a quem queres oferecer uns fones? Esse tipo. Mas ouves sempre alguém a tocar música nem que seja pela janela do carro ou dentro de uma loja. Em casa a minha mãe ouvia muito tango, Paul Simon, The Beatles, Al Green, esse tipo de coisas. Mas ouvia muito pouca soul, mais música europeia contemporânea que, imagino, seja muito relacionável para ti que vens de Lisboa e tens a cultura europeia.

Ela deu-me muitos sons, mas Nova Iorque era óptima nesse aspeto porque tens salsa e merengue na parte alta da cidade, dancehall nas Crown Heights, Rancheras a tocar em Bushwick, punk no Lower East Side, e também, claro, muito hip hop. Há demasiada coisa a acontecer musicalmente e também és muito estimulado visualmente. Vi pessoas a defecar no metro quando era criança, é muita coisa para assimilar, e tudo com banda sonora. Senti-me sempre como um observador de tudo. É um pouco o mesmo com este álbum. Sou eu a fazer as mesmas coisas que a minha mãe.

Posso pegar justamente nessa parte. O Agüita tem muitos sons diferentes. Ouvi o disco mais do que uma vez e senti que cada faixa tem uma base comum, mas que todas seguem direcções diferentes a partir daí. Concordas com isto?

Claramente. Eu sou a base e depois todas as músicas exploram facetas diferentes. É suposto o álbum soar como uma banda sonora, como se estivesses a ver um filme e está tudo a acontecer ao mesmo tempo. Depois, no fim, reparas que foi uma única pessoa que fez tudo sozinha, e isso é muito interessante porque a maioria das pessoas vai pensar que consegue fazer isto.

É muito curioso como toda a gente tem uma imaginação incrível para investir em determinadas culturas que não são as suas. Depois vão todos dizer que “se não fazes isto, não és português”, ou que tens que comer aquilo, ou que não és francês o suficiente. Com tudo isto, começas a aprender a desempenhar papéis, a ser uma personagem. E, claro, tens os teus momentos mais autênticos quando estás sozinho ou com a tua família. Acho que é muito confuso, mas a minha música é um pouco isto.

Li algumas entrevistas tuas em que disseram que tens três personagens diferentes neste álbum. Foste tu que lhes contaste isso, ou inventaram?

Acho que é bastante claro. No Colors apresentei três personagens e as pessoas disseram, “repara nestas mudanças”. Trabalhei com isso. Depois contei tudo a toda gente, porque é a minha música, mas ninguém percebe nada até lhes dizeres exactamente o que pensar. Mas ainda assim, as pessoas não sabem que precisam do teu input para perceber a tua música até descobrirem que adoram. O Steve Jobs fala disto, ele tinha que perceber que computador queria vender, porque ao final do dia só vais vender o computador a quem te aparecer à porta. Tudo é possível, mas o que é que vais dizer às pessoas?

No início perguntei à editora o que achavam de ter sido eu a fazer tudo. Disseram-me que não sabiam como haviam de vender o meu álbum. Disse-lhes que tínhamos aqui três coisas diferentes, um menu de degustação. Tens A, B e C. Ao fim de um tempo disseram-me, “isso é demasiado deliberado, vamos dizer que és tu a fazer isto de forma despreocupada”. Depois ficaram com medo e voltámos à ideia original tripartida. 

Isto só mostra o quão pouco as pessoas compreendem o que se está a passar. Para mim estas conversas convosco, jornalistas, são exactamente o que as pessoas precisam, porque não chega só mentir sobre as tuas músicas, como algumas pessoas fazem. Eu estou aqui como sou.



Escrever de três perspectivas diferentes deve ser desafiante. Isto sai-te normalmente, consoante o teu estado de espírito, ou é algo que trabalhas?

O Picasso disse que um bom artista pede emprestado e um grande artista rouba. Aprendi a imitir as coisas que adoro. Se estiver a ouvir Chopin, vou fazer algo semelhante no meu teclado, o mesmo se estiver a ouvir gospel [toca acordes de gospel ao teclado]. Isso até me deixa meio depressivo, perceber que há demasiada informação no mundo, e que não consigo assimilar tudo. Posso tocar todas as músicas produzidas no hemisfério norte com uma única mão! Consigo fazer isto, mas não consigo esperar o dia todo na fila da farmácia. 

Para mim, fazer música começou como um acto de rebeldia e independência. Num ano fiz 16 canções, o que é praticamente suicídio comercial. 

Mas só completaste mesmo 16 temas, ou fizeste mais que preferiste não tornar públicas?

Quando alguma coisa parece que não está a funcionar e já vais a 75%, é muito difícil alterá-la ou terminá-la. Normalmente não tenho 16 temas feitos e escolho 10. Provavelmente tinha 20, 10 das quais em que exagerei, outras 10 não acreditei nelas. Mas tornam-se em temas dignos de reinvestigar e volto sempre a elas. É como um sifão de ideias em círculos. Às vezes estou em baixo e revisito tentativas de temas que acabo por considerar bastante boas. Posso misturá-las com ideias novas, terminá-las ou simplesmente descartá-las naquela altura, mas estou sempre a combinar coisas que fiz há cinco anos com coisas novas, quando me vou lembrando. Duplico o ritmo, faço algum corte e costura e reutilizo. Há tantos processos… mas por norma gosto de me sentar ao teclado e cantarolar uns ritmos [toca algo que faz lembrar Thundercat]. Depois disso consigo fazer tudo muito melhor no computador, mas não consigo só sentar-me ao computador e clique, clique, clique. Mas sinto que, ao fim de dois álbuns, finalmente sou bom a fazer isto, mas passei por fases em que odiava tudo o que fazia. 

Também não produzo com outras pessoas por vários motivos. Não confio em ninguém e ninguém quer saber. Se não tiveres dinheiro, ou não quiseres pagar, alguns produtores dão-te uma pasta com beats que fizeram há três anos e que ninguém quis… não sou nenhum idiota. Esta cultura está mesmo lixada no que toca aos artistas, tens que estabelecer os teus limites.

Esta é a primeira vez que te ouvimos a fazer rap…

Porque é a primeira fez que faço um tema com rap. 

É que disseste-me que por vezes voltas a trás e pegas em peças inacabadas que retocas e concluis. Pensei que podias ter feito rap antes, mas só para ti, e que agora, finalmente, tivesses lançado um tema com estas caraterísticas.  

Sim, tens razão. É o primeiro rap que gravo. Acho que no passado todo o rap que fiz fui eu a fazê-lo em inglês e a aprender o cânone; a descobrir Biggie Smalls, MF DOOM, Viktor Vaughn, A Tribe Called Quest… e a vasculhar tudo o que há depois disso, ano após ano. ‘”O que se passa?” “Porque é que isto soa diferente daquilo?”. Fiz isso tudo até à Ruff Ryders e ao Timbaland. Estive a praticar musicologia e outras coisas aleatórias, a tentar relacionar Prince com D’Angelo e J Dilla. Perceber como Andre 3000 vem de Prince… e a vasculhar tudo até ao boogie-woogie. Ver como ninguém se mete com o D’Angelo, que é um dos melhores  juntamente com os outros que mencionei. Há que ver tudo isto como uma árvore enorme. A verdade é que, na minha cabeça, tenho feito rap toda a minha vida. 

Mas em espanhol?  

Eis a questão. Estive muito ligado ao meu lado colombiano quando o meu pai me mostrou alguns discos de cumbia, devia ter eu 20 anos. A primeira canção que me captou a atenção chamava-se “El Pescador” [canta a música apenas acompanhado por palmas], é incrível!



Soa-me estranhamente familiar

Exactamente! Lembra-me Ernest Hemingway, com os seus pescadores. Nesta canção, o pescador não tem nada, só quatro redes de pesca. Ele fala com a lua, com a praia… É só tambores e vocais, quando ouvi todos aqueles ritmos relembrou-me que cresci aqui, em Nova Iorque, mas que aquilo me pertence. Toda a vida olhei para as coisas como se fosse um outsider. “Mas isto é o que nós temos?”, e o meu pai respondeu que sim. “Parece africano…” e a questão é que os colombianos são racistas como o caraças! Mas os tambores africanos são quase a base de toda a música moderna do ocidente, se não mesmo do mundo. E ter aquele momento com o meu pai, um momento de verdade e de conexão com a história, cultura, arte… não há estranheza naquele momento. Foi a ocasião em que o meu pai me contou a verdade sobre um momento na história através das vibrações daquela música. Temos muito poucos momentos como este na história.

Mais tarde ele mostrou-me um documentário chamado Our Latin Thing, sobre “a noite em que nasceu a salsa”. Ver aquilo e perceber que Joe Feliciano e Willie Colón são as verdadeiras estrelas de rock. É como se o Hector Lavoe fosse o Bad Bunny! Há uma outro do Hector Lavoe em que ele fala exactamente no mesmo registo. O marketing destes álbuns de salsa são os gajos em posters de “Procurado”, tenho aqui o álbum e uma t-shirt em casa! Tudo o que tens hoje vem de alguém que lhes mostrou o caminho. 

Não sei se concordas, mas as pessoas consideram o teu álbum bastante aestethic. Tudo encaixa perfeitamente, desde a capa aos mais pequenos sons que compõem cada um dos teus temas. O que achas disto?

Onde é que leste isso? Isso é lindo! É no que tenho trabalhado ao longo dos últimos quatro anos! Vou ter que fazer o meu trabalho de casa, tenho estado enterrado em entrevistas nos últimos dias. 

Acho que a ideia principal é que mesmo com as três personagens diferentes neste novo álbum conseguiste encontrar maneira de juntar tudo muito bem. Isto foi planeado ou surgiu na altura? Como é que decidiste organizar o disco? Até porque já mencionaste que ele é quase uma banda sonora. 

Quando percebi a forma que estava a tomar esta coleção de músicas sabia que tinha de fazer x quantidade de cada personagem. Não me podia só fiar no sucesso da “Agüita”. Esse foi o tema que me deu a capacidade de criar o conceito. Sem isso ficaria parecido com qualquer um dos meus álbuns.

Pensa um pouco, se retirares o “Muñeca”, “Mira My Look” e “Agüita”, torna-se mais um dos meus álbuns em que as pessoas me reconheceriam instantaneamente, só que com mais dinheiro investido na produção. É mais cinemático, estou mais inteligente, mais maduro, estou mais habilitado enquanto músico, ouve-se isso no meu álbum, que soa mais adulto. Já não pertence a um rapaz de 23 anos. Tenho 31 agora, é tudo muito diferente.



Mas depois adicionas o “rappero” e tudo se torna diferente.

Exactamente. A ordem em que tudo aconteceu foi porque queria ser aquele gajo com 10 em 10 na Pitchfork, queria esse lugar e tinha medo de toda a gente que o ocupasse, mas também estava muito cínico em relação às políticas que advêm de ocupar esse espaço. Estava tão irritado com tudo o que tinha feito e, basicamente, não me sentia fixe o suficiente, então fiz a “Blue Dot“. É uma música irritantemente dissonante, é assim que sei que estou a ser real. Até tinha medo de cantar em falsete, mas estava tão farto do meu eu… tudo o que fazia não prestava, toquei para sete pessoas em Berlim, foi horrível … Quando fiz os primeiros acordes da melodia não sabia em que direcção ir, mas não quis saber. Não ia ficar mais miserável a tocar músicas estúpidas, que é o que muita gente faz. Não é divertido para ninguém. No final de contas voltei a fazer o que gosto, a ir a festas e a ficar bêbedo e tudo aquilo em que conseguia pensar era como toda a gente em Los Angeles iria reprovar a minha nova direção [risos]. “Nunca vais fazer nenhum dinheiro assim!”.

Depois percebi que tinha de fazer o oposto! Faz alguma coisa que, em vez de não ter regras, segue as suas próprias regras. É que o sentimento é o mesmo. “Não inventes mais regras, não sabes nada e estás-te a sentir miserável”. Fá-lo da maneira óbvia. Sem a letra, “Blue Dot” não passa de som ambiente. Depois decidi fazer um tema de hip hop.

Se reparares nos temas do Kanye West, eles têm só cinco sons, e depois é ele a contar uma história em como é o melhor a fazer qualquer coisa. Mas o que raio está ele a dizer, onde está a clareza? Mas a coisa mais fácil de criticar é aquela que é definitiva. E repara em quem recebe mais tempo de antena: o Kanye West.

A “Blue Dot” foi um lindo exercício de meditação. Mas agora tenho que fazer o oposto, algo que toda a gente possa apreciar e que pague as contas. Por mim mesmo, tive que mudar para pagar as contas. Ganhei um certo street credit, agora tenho que ganhar um cheque.

Uma outra música de que realmente gosto no teu álbum é a “Bloom”, em que a tua voz parece até que “racha” um pouco. Disseste há pouco que gostas de trabalhar sozinho, sem produtores. Achas que se trabalhasses com um produtor ele te deixava fazer isto?

[Risos] Depende de qual. Tens produtores vocais que trabalham com a Rihanna que teriam suavizado a minha voz, mas que a teriam mantido tal e qual nas partes em que a minha voz arranha mesmo. Mas sabes, já ouvi as gravações a seco da Beyoncé, sem efeitos, e fazem o mesmo. 

Isto é o que acontece quando tocas um instrumento e cantas. A “Agüita” por acaso até só teve um take na parte vocal. É muito difícil fazer aquilo duas vezes igual. Cinco minutos depois já estás a cantar mais abaixo. Eu só queria ser uma daquelas pessoas que se senta ao microfone com um quinteto de cordas e toca e grava tudo numa vez. Foi a canção que escrevi mais depressa. 

Li uma outra entrevista tua em que disseste que o Prince era o teu maior ídolo e que a capa do teu álbum está ligada ao Lovesexy. Essa influência é algo que tentes incutir na tua música? 

Humm… Não. Acho que ele é uma grande parte de mim. Digo-te isto, quando o Prince morreu tinha 17 chamadas não atendidas de manhã, ao acordar. Três delas eram do meu pai. Eu nem falo com muitas pessoas. Falo com o meu manager, com a minha namorada, com a minha irmã… a família. Quando muitas pessoas diferentes me ligaram, olhei para o telemóvel e pensei imediatamente que o Prince tinha morrido.

Lembro-me quando descobri o Dirty Mind e pensei no que seria ser o Prince em 1980, enquanto um jovem negro, de saltos altos, a tentar não levar pancada da polícia. Pensei em como ninguém se relacionava com ele e como a sua apresentação era completamente inaceitável pelas normas daquela altura. 

O que eu estou a fazer agora está a fazer com que receba chamadas para fazer eventos LGBTQIA+. Eu vestir-me como se estivesse nos anos 70 faz as pessoas pensar que chupo pila. Na CNN perguntaram-me, literalmente, onde punha o pénis. “Com que comunidade te identificas?”… [Risos] Pensa no que isso implica… Eu pertenço à comunidade dos seres humanos. Isso importa?

“Será que a minha música é gay o suficiente para vocês?” “Ou talvez não seja hétero o suficiente!” O que raio é isto? Só o facto de as pessoas tropeçarem na própria inteligência para me perguntarem este tipo de coisas desrespeitosas enquanto me pedem que me mantenha adequado explica perfeitamente o que o meu trabalho é suposto transmitir. É uma crítica à mania de meter em caixas enquanto pensamos que somos os mestres de tudo.


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