pub

Fotografia: Miguel Oliveira
Publicado a: 08/11/2021

É tudo uma questão de ritmo.

Fred: “A abordagem rítmica do Madlib em cada tema é algo que me encanta”

Fotografia: Miguel Oliveira
Publicado a: 08/11/2021

O jazz foi o primeiro grande amor de Madlib e ele, seguindo um ditado antigo, nunca o esqueceu. A obra do caçador de loops sempre foi permeável às notas azuis — e em Fevereiro deste ano explicámos, num longo ensaio, esta relação tão profícua que nos deu trabalhos como Shades of Blue (2003) ou Pardon My French (2020), dois exemplos dessa intensa relação com o género musical.

Otis Jackson Jr. não foi o primeiro grande amor de Fred, mas foi o primeiro que lhe surgiu quando foi altura de se atirar a um disco de versões. Tal como nos explicou, a admiração e a vontade de “mergulhar um pouco mais no seu trabalho” foram razões mais do que suficientes para levar uma série de músicos para o Arda Recorders, no Porto, e prestar-lhe este tributo em forma de álbum.

Nestes 10 temas, a roda não é inventada, nem se pediria isso, mas o amor — palavra tão importante para Madlib como para o baterista dos Orelha Negra (caso não se recordem, O Amor Encontra-te no Fim, 2019, foi o título que escolheu para o seu álbum de estreia em nome próprio) — trouxe-nos a um bonito, e improvável, lugar. Se apanharem o autor de Sound Ancestors (2021) por aí, digam-lhe que um músico português teve este gesto bonito…



A primeira pergunta tem de ser: porquê o Madlib? Ou deixa-me colocar a questão de outra forma: o que é que o Madlib tem de especial para o quereres homenagear, diga-se assim, com um disco de versões?

O Madlib é um artista que sigo há muitos anos e com muita atenção. Gosto muito da sua musicalidade, abordagem e criatividade, o seu extenso repertório, que passa por muitos universos diferentes, fez-me querer mergulhar um pouco mais no seu trabalho e daí propor a toda a banda fazermos algumas reinterpretações do seu trabalho. Todos aceitaram bem e fomos estudando e dando a nossa leitura. 

Quando escrevi a curta sobre o lançamento do teu disco comentava que a capa se assemelhava à do Robet Glasper para o seu Everything’s Beautiful. Tinhas outro tipo de discos de versões como referência para o teu? Para além de fazeres o estudo da obra do Madlib, foste à procura de projectos que se pudessem assemelhar a este à procura de inspiração?

Não fui em busca de nada em concreto, tinha a minha ideia na cabeça do universo que queria criar e, juntamente com todos os músicos que gravaram e o excelente trabalho do Zé Nando e da equipa do Arda, chegámos a um ponto que me deixou muito feliz. Foi um disco que foi crescendo ao longo do tempo e em que todos os pormenores foram importantes. A fase de mistura foi, de facto, a grande viragem e o encontro do que procurava.

A capa foi feita pelo meu irmão mais novo, o Pedro Versteeg, e não partiu de nenhuma referência, partiu de uma conversa entre nós do que eu sentia ao ouvir o disco e do que ele sentiu a ouvir também. Mandou-me esta proposta e fiquei logo apaixonado por ela.

Como é que fizeste a selecção das faixas? Estas são as tuas favoritas do Madlib ou houve outro tipo de premissa?

Tinha uma pré-seleção feita e em estúdio fomos ouvindo e percorrendo outras músicas e em conjunto fomos decidindo as melhores músicas para serem reinterpretadas. Gosto muito destas faixas mas também de outras coisas que o Madlib vai fazendo, mas fui fechando o repertório também de forma a termos músicas que funcionam bem com a formação que temos. 

Houve algum tema mais complexo de se traduzir para o tipo de ambiente que querias?

Os temas e os seus arranjos foram saindo de forma natural, umas músicas foram mais complexas mas, em geral, foi tudo muito natural, queria respeitar os takes gravados e a espontaneidade do momento. Mas precisei depois das gravações de um tempo de distanciamento até às misturas para poder ir procurando os ambientes que pretendia e nessa fase é que aprofundei mais os espaço que pretendia no disco.

Foste gravar o disco ao Arda Recorders. A escolha desse estúdio teve alguma razão em especial?

Os Arda são, além de um estúdio espectacular com excelentes condições, um sítio que tem na sua equipa grandes amigos meus e uma equipa técnica de excelência. Tendo em conta as características que queria com este disco, foi uma decisão rápida para mim e que me deixou muito feliz em todos os momentos do processo.

Como é que foi a preparação para ir para o estúdio? Já sabias logo à partida que músicos terias contigo ou houve espaço para experimentar e descobrir?

Nós temos esta banda há algum tempo, tocamos ao vivo algumas vezes antes do disco, embora outro repertório, e soube desde sempre que seria com eles que queria gravar. Mais à frente convidei alguns amigos meus que aceitaram o convite e acrescentaram ainda mais talento a este conjunto de músicos formidáveis. Juntaram-se por isso ao Eduardo Cardinho (vibrafone), Márcio Augusto (baixo), Karlos Rotsen (piano) e Tomás Marques (saxofone) a garota não (coros ), Zé Cruz (flautas e trompete ), Iuri Oliveira (percussões ) e Diogo Santos (pianos e synths) no tema “Road To The Lonely Ones”.

Imagino que te tenhas embrenhado a sério na obra do Madlib para retirares estas 10 faixas. Houve algo que tenhas aprendido sobre o Madlib nesse mergulho? Algo que nunca tinhas reparado e que te saltou à vista quando atacaste as suas músicas?

O meu instrumento é bateria e, de facto, a sua abordagem rítmica em cada tema é algo que me encanta, gosto das suas soluções em cada música e a forma como usa os samples, fez-me estudar e aprofundar o meu conhecimento sobre o seu trabalho. Mas creio que neste estudo conheci melhor o seu trabalho enquanto Quasimoto, que não estava tão dentro.

Vens de um disco com uma carga bastante emocional, O Amor Encontra-te No Fim, para algo que me parece mais uma forma de rescaldo desse momento. Virares-te para a obra de outra pessoa e fazeres a tua abordagem não deixa de ser algo pessoal e único, mas perde-se esse factor emocional, diria. Existiu uma maior leveza na hora de abordares este Series Vol. 1 – Madlib ou para ti não há grande correlação entre os dois discos?

Aqui creio que falamos de coisas diferentes, o meu primeiro disco foi algo pessoal e muito introspectivo que me deu muito gozo fazer mas me fez mergulhar profundamente em uma viagem que teve coisas boas e coisas más para mim. Depois desse álbum fui vivendo momentos diferentes e tinha a necessidade de tocar de uma forma um pouco diferente e em conjunto. A seriedade com que fiz este trabalho foi exactamente a mesma, estou simplesmente noutro ponto na minha vida, mas sinto ligação entre tudo. Sou eu em ambos os trabalhos e são as minhas ideias. Irei continuar a fazer discos mais sozinho e discos em conjunto. Depois deste trabalho colectivo, já comecei a trabalhar em outras ideias e mais sozinho para tentar criar algo de originais mais à frente, mas de certeza que farei mais disco destas séries, com eles, debruçando-nos sobre outros artistas. 

Para já, apresentaste-te apenas na Casa da Cerca, em Almada, com este projecto, julgo eu. Como correu? 

Esse foi uma excelente forma de apresentar as nossas músicas novas do disco. Foi um dia muito bom para nós num local muito bonito e que nos recebeu de uma forma muito especial. Foi o nosso pontapé na bola com as apresentações ao vivo deste disco. Foi a primeira vez que tocámos com dois pianistas, o Diogo Santos e o Karlos Rotsen, e isso deu-nos uma liberdade de improvisação maior ao vivo e creio que o resultado foi mesmo muito positivo.

Olha, para finalizar, queria-te só perguntar — tendo em conta que os teus últimos dois projectos são mais jazz-oriented e, claro, tudo o que fizeste com Orelha Negra também passa por aí — se andas atento a estas novas flutuações, chamemos-lhe assim, de uma nova geração de músicos de jazz portugueses que tem abordado o jazz com um pé no hip hop. Lembro-me, agora assim por alto, dos Mazarin e dos OCENPSIEA. Como consumidor e praticante destas misturas, agrada-te que comecem a existir mais projectos com este ângulo em Portugal? 

Gosto muito de ouvir música nova , tento ir ouvindo tudo de novo que se faz em Portugal, e sinto que estamos num grande momento criativo, oiço todos os dias grandes músicos e bandas em Portugal que me enchem as medidas. Orgulhoso em todos nós. 

Para fechar mesmo: que datas tens aí na calha?

Temos alguns concertos marcados. Iremos fazer para já uma data em Lisboa e no Porto até ao fim do ano e depois seguiremos com mais alguns concertos que estamos a fechar. 


pub

Últimos da categoria: Entrevistas

RBTV

Últimos artigos