Na mais recente edição da #ReBPlaylist, alusiva à música editada durante o mês de Maio, João Mineiro dava destaque a “canção de embalar”, uma das faixas que moram debaixo do tecto de quatro partos, um “EP que conjuga as íntimas, frágeis e acolhedoras texturas sonoras de Pedro, o Mau, com a lúcida inquietude de zé menos, num mundo narrativo que é tanto deles, como nosso.”
Selado pela Biruta Records, o curta-duração evoca memórias de José Afonso e procura navegar pelo vibrante novo universo da canção portuguesa a partir de uma perspectiva mais arrojada, muito graças à hipersensibilidade poética do rapper portuense e às divagações menos óbvias que o produtor de Gaia, actualmente sediado em Lisboa, frequentemente alcança em tudo aquilo onde deita a mão.
É já em Julho que as primeiras apresentações ao vivo vão decorrer — dia 5 no Maus Hábitos (Porto) e dia 12 na Casa do Comum (Lisboa) — e o momento não podia ser mais oportuno para recuperarmos algumas impressões que zé menos deixou sobre cada uma das 6 cantigas que compõem o alinhamento deste colaborativo projecto.
[“arena”]
A vontade de a escrever veio no rescaldo das presidenciais de 2021. Os cravos enquanto flor/conquista que precisa de manutenção e que não a tem tido, só sendo regada por água salgada. Suor do trabalho, lágrimas.
[“borratado”]
“amor, eu nunca chamei amor a ninguém” deve ser das frases mais vulneráveis que já publiquei. Esta canção tem esta ideia de fragilidade, de um homem com aviso de “frágil” a quem fazem questão de “borratar”. Relatos de alguém a quem já foi dirigida um par de vezes a ideia do Zé Mário — “ensinas-me a fazer tantas perguntas na volta das respostas que trazia”.
[“quadrado azul, T vermelho”]
Lembro-me da primeira sensação de ar e espaço ao pegar neste beat do Pedro. Tento sempre convencer as pessoas de que não é uma canção triste, foi um ponto de viragem, escrever coisas a apontar para cima ainda que de forma tímida. No fundo, a conclusão de que um beco sem saída tem saída — mas implica querer sair.
[“corpo que gira”]
Outra que marcou pra mim esta fase de conseguir escrever pra cima. Procurar leveza, não ser tão auto-consciente, não sentir que tudo é uma micro-decisão. Fases em que só me importa a translação.
[“canção de embalar”]
Canção de me embalar. Falo para mim com o carinho com que falaria para um filho. Não para o meu infante passado, mas sim para o Zé frágil e vulnerável que precisa de ouvir palavras do Zé confiante, tranquilo, sólido, em paz. Uma espécie de relembrar princípios que são fundações, ideais que não se devem “adultecer”. E na recta final — a lembrança de todas as vezes que nasci.
[“muito contra a minha vontade”]
Escrito numa viagem de metro. Acho que a ideia veio de ouvir conversas que são só trocas de listas do que cada um já visitou na vida e de nenhum mostrar especial interesse nas histórias do outro. A conversa seguinte pode perfeitamente ser onde cada um quer ir, o que está por ver/fazer. Como se mede a passagem de alguém por aqui?
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