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Fotografia: Carolina Marta
Publicado a: 17/06/2024

Modernidade e costumes.

EVAYA: “Desde que comecei a compor em português, acho que o mais difícil é fugir das melodias mais tradicionais”

Fotografia: Carolina Marta
Publicado a: 17/06/2024

Após o lançamento consideravelmente espaçado de três singles a antecipar a direcção criativa que culminaria no primeiro álbum de EVAYA, Abaixo Das Raízes Deste Jardim finalmente floriu no passado dia 5 de Abril, volvidos quase 4 anos desde que a roupagem musical a solo de Beatriz Bronze se fez notar com a edição do EP INTENÇÃO a 4 de Outubro de 2020, na sequência de diversos temas originais e colaborações que desvendavam o projecto já desde o final do ano anterior.

O Rimas e Batidas marcou presença no concerto de apresentação deste álbum no B.Leza a 18 de Abril, e comprovou que o cancioneiro pop electrónico de EVAYA se faz mostrar cada vez mais actual, onde o piscar de olho regular ao folclore musical português se encontra em concordância com um cruzamento entre modernidade e tradição que se faz sentir de forma cada vez mais sonante a nível nacional e global — quem tivesse o seu primeiro contacto com o repertório de Abaixo Das Raízes Deste Jardim neste espectáculo poderia notar no início do mesmo a ocasional reminiscência da música tradicional portuguesa por entre os motivos tímbricos e melódicos da artista e em beats semelhantes ao ribombar de adufes em vários dos temas tocados nesta noite.

Em conversa com o Rimas e Batidas, EVAYA revela o processo que tornou possível a criação deste jardim.



De INTENÇÃO até Abaixo Das Raízes Deste Jardim passaram sensivelmente 4 anos, embora vários singles que viriam a constar neste último projecto tivessem preenchido este “período de espera”. O que levou a tal prolongamento?

Faz 4 anos em Outubro, mas sim, passou muito tempo para mim. Este tempo de espera foi por estar a trabalhar em regime full-time noutras áreas e restar-me pouco tempo para fazer o álbum, e ter pouca experiência a fazer música também. Normalmente, as folgas eram preenchidas a ensaiar para os concertos, e só no final de 2022, depois de receber um subsídio de apoio do fundo cultural da SPA, é que comecei a produzir de uma forma mais rápida o disco. Cresci muito com este processo, acho que agora talvez seja mais rápida a lançar material novo.

A primeira parte do concerto de apresentação do álbum no B.Leza esteve encarregue dos recém-formados Proxy Fae. Como surgiu esta escolha?

O Nicø dos Proxy Fae faz parte da minha formação ao vivo em trio, e como ele está juntamente com a Cláudia a começar o projeto deles, eu decidi convidá-los para fazer a primeira parte. 

Um dos pontos de destaque que me chamou à atenção no início do concerto — e que aparenta fazer o contraste entre o teu trabalho anterior e Abaixo Das Raízes Deste Jardim  é a presença de motivos melódicos e percussivos reminiscentes do folclore português, à semelhança do que acontece com a música de nomes como emmy Curl ou Ana Lua Caiano. Como olhas para esta nova cena de cruzamento entre o tradicional e a pop electrónica a nível nacional e global, e de que forma é que tal te influencia?

Eu não encontro propriamente essa sonoridade nos elementos percussivos e nem foi essa a intenção, mas nas melodias de voz de algumas canções ouvimos realmente essas melodias mais tradicionais. Desde que comecei a compor em português, acho que o mais difícil é fugir desses recursos que naturalmente aparecem — fazem parte da nossa herança cultural e isso sente-se de uma forma energética no processo criativo. É mais algo intuitivo do que planeado e talvez por isso seja só em algumas canções. No EP, a “Doce Linguagem” já trazia um pouco dessas melodias, podia ser quase transformada num cante alentejano, mas nessa altura eu ainda compunha de uma forma tímida e até tinha algum receio de assumir esse tipo de relação com música tradicional. Venho de um meio rural e, se calhar, no início até queria distanciar-me dessa óbvia ligação… Não sei. Na altura tinha vergonha de explorar mais isso, não sei explicar porquê. Quando continuei a escrever canções percebi que não queria evitar essa naturalidade melódica que chega até elas. Comecei a escrever a “Atenção” e a “O Que Acontece Agora” no final de 2021 e percebi que ia mesmo assumir esse tipo de melodias sempre que viessem, porque é mais fácil aceitar o que é orgânico, e faz-me sentido ao cantar em Português. Mas depende da música. Acho que no meu disco isso existe realmente, mas não é sempre. No entanto, não vejo esta abordagem de cruzamento entre pop e tradicional como algo propriamente novo: o Variações não o fazia já? E mesmo artistas da nossa altura: Filipe Sambado já traz melodias assim para a música pop há algum tempo e a emmy Curl também. Acho que a nossa percepção sobre tal é que é nova, através de fenómenos como Conan Osíris e Ana Lua Caiano, que “viralizaram” e mostraram a mais pessoas que isso se estava a fazer. 

Este álbum não tem apenas uma ambiência bucólica — também contém investidas mais intensas, como se verificou no tema de encerramento da actuação, “Sementes”, que tu própria descreveste no momento como sendo um tema ‘punk’ [risos]. De que forma é que estes dois lados se conjugam?

Esteticamente falando, eu acho que se conjugam através de elementos que estão sempre presentes e que representam o universo da EVAYA, sejam as texturas que partem de elementos orgânicos (apesar de nem sempre ser óbvio), o registo vocal, a desconstrução da ideia de canção enquanto estrutura, ou as máquinas que são as mesmas em todos os temas (synths e drum machine)… E os poemas contam uma história que se interliga de música para música, conceptualmente, e mesmo através do vocabulário escolhido, as palavras pertencem ao jardim, podemos ouvir uma ou outra em todos os temas: sol, água, brotar, florir, sementes, terra, regar… Sinto que a história do disco fala de um determinado caminho até chegar a um portal, e acho que a colocação da “Sementes” em último lugar é, tipo, chegar a esse portal, e o final da canção é entrar no portal e sintonizar-me noutra frequência onde dá para ser mais livre, onde se dá mais um passo em frente na evolução do ser — é como nos desenhos animados, quando as personagens se transformam no seu alter-ego e descobrem poderes mágicos [risos]. Não sei explicar muito bem como é que aconteceu… Tento não me limitar muito no que diz respeito a géneros e estilos, não tenho uma fórmula, não sei se quero ter. Ainda me estou a conhecer. Faço canções de uma forma mais exploratória, e o Polivalente, que produziu comigo o disco, alinhou-se nessa frequência também para me ajudar a contar a história que eu precisava de contar. Quando ouço o disco pela ordem em que escolhi mostrar os temas, sinto que é uma história com início, meio, e fim, e sinto que as músicas pertencem a um universo próprio onde todas fazem sentido ao lado umas das outras.

O feedback do público fazia-se notar de forma muito positiva. Como tem sido a recepção deste repertório até então?

Uma boa surpresa! Eu acho que fiz um disco que pode ser um pouco estranho, portanto saber que há pessoas que gostam e que sabem as letras é muito mágico! O feedback depois dos concertos tem sido muito fixe: há sempre pessoas novas, e que ainda não conheciam nada, que vêm falar comigo no final e dizer que gostaram. É mesmo muito gratificante depois do trabalho que deu a fazer. Sinto que ainda há poucos acessos para mostrar o tipo de música que eu faço, é difícil passar nas rádios com mais público, por exemplo. E por isso tocar ao vivo torna-se a minha maior ferramenta de comunicação.


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