A rapper luso-angolana Eva RapDiva é candidata a deputada pelo Partido Socialista (PS) às próximas eleições legislativas, que estão marcadas para 18 de Maio. Eva Cruzeiro surge em oitavo lugar na lista do círculo eleitoral de Lisboa, o que é um lugar habitualmente elegível para o partido. Em 2024, o PS elegeu 15 deputados pelo distrito da capital portuguesa.
“Vocês conhecem-me. Sabem quem sou, o que defendo, como luto e a forma firme que sempre fiz as minhas escolhas. Tudo o que conquistei até hoje, seja na minha vida profissional ou académica, foi fruto de muito trabalho, resiliência e dedicação. Já dei muito de mim em nome daquilo em que acredito. Agora, quero dar ainda mais”, escreveu nas redes sociais.
“Vivemos tempos difíceis, marcados por incerteza, desigualdade e ataques cada vez mais frequentes aos nossos direitos fundamentais. Perante isto, não podemos ficar indiferentes. A minha candidatura é, também, um grito de alerta e um apelo à mobilização. Temos que agir! Temos que nos unir! Temos que lutar pelos direitos que já conquistámos, pelos que ainda queremos conquistar e contra tudo o que nos quer silenciar. A minha entrada na política institucional não representa uma mudança de caminho, mas sim um novo capítulo da mesma luta. Uma luta que sempre travámos juntos com arte, com coragem, com consciência e com o coração. Uma extensão natural de uma caminhada feita de activismo e compromisso com a justiça social. O meu compromisso convosco é, a partir de hoje, ainda maior. Conto com o vosso apoio nesta nova etapa e quero que saibam que esta candidatura é também vossa. É por nós, pelas nossas pessoas, pelas nossas causas, e pelo futuro que merecemos construir”, acrescentou ainda.
Eva RapDiva nasceu em 1988 em Portugal. Passou os primeiros anos de vida na Arrentela, e foi ainda nos anos 90 — com apenas 8 anos — que começou a ouvir rap com o primo. Boss AC, Da Weasel, Black Company e Chullage foram algumas das primeiras referências. Na altura já fazia algumas rimas com o primo, em jeito de brincadeira, mas tornou-se algo mais sério quando a família se mudou para o outro lado do Tejo e Eva começou a frequentar uma escola na Amadora onde havia mais miúdos interessados em descobrir o hip hop e a partilhar improvisos.
Tinha 12 anos quando começou a aperfeiçoar a arte do freestyle, com que se tornaria conhecida. Aos poucos foi conhecendo mais pessoas envolvidas no meio, a frequentar concertos e a sua primeira exposição ao público acaba por acontecer em 2006. Foi nesse ano que uma sessão informal de improviso na casa de Sam The Kid, também com Sir Scratch, foi registada em vídeo pela cantora Tamin e chegou à Internet. Eva destacou-se de imediato pela sua atitude e garra, pelo talento em criar versos fluidos de forma instantânea, aliada à sua juventude e também ao facto de ser mulher.
Esse vídeo torna Eva algo reconhecida dentro do movimento — e a artista vai construindo o início da sua carreira durante os anos seguintes. Foi convidada para várias colaborações importantes, entre as quais para participar na reedição de Pratica(mente), de Sam The Kid, em 2008; na mixtape Incendiários, de Sir Scratch e Bob da Rage Sense, em 2009; e na compilação De Volta ao Serviço, de DJ Cruzfader, no mesmo ano.
Também em 2009, foi viver para Angola. O motivo para ir viver para o país de origem da família não era a música, mas foi lá que acabou por se encontrar nas circunstâncias certas para construir um percurso profissional no rap. Em 2012, começou a apresentar o programa Beatbox, na Rádio Luanda. Entretanto, adoptou o nome artístico Eva RapDiva — uma alcunha que a amiga Tamin costumava usar.
No ano seguinte, participou com vários rappers numa remistura de “Fuba”, tema das Gingas do Maculusso, que se tornou um hit em Angola e catapultou o seu nome. A música foi descarregada incontáveis vezes e o videoclipe tornou-se popular na televisão. Foi o clique necessário para que Eva repensasse as suas prioridades e arriscasse tudo em busca do seu sonho. Deixou o emprego confortável em Luanda e investiu o dinheiro que tinha na gravação e promoção de um disco, que viria a ser Rainha Ginga do Rap. Chegou a estar praticamente sem dinheiro depois de investir o necessário para fazer avançar o projecto, mas acabou por fechar um contrato com a editora Mad Tapes, de DJ Samurai.
O trabalho, sobretudo produzido por Conductor, foi editado em 2014 e o risco compensou. A partir do lançamento do álbum, Eva RapDiva tornou-se um nome popular em Angola e começou a actuar no diverso e vasto (mas também exigente) circuito de espectáculos do país. Desde discotecas a festivais de estádio, a rapper luso-angolana passou por todo o tipo de palcos e eventos.
Ao vivo — onde sempre se destacou — manteve quase sempre a vertente de freestyle e de rimas a capella. Ao longo dos últimos anos, a sua carreira só se consolidou mais, com a conquista de prémios, palcos cada vez maiores, um protagonismo enorme em Angola e também expressão noutros países lusófonos.
Em 2017 apresentou o segundo disco, Eva — em homenagem à avó cujo nome herdou. Em termos sonoros, a rapper veio de uma escola boom bap mas nos seus discos sempre foi ecléctica e aberta a diferentes sonoridades, cruzando estéticas afro com instrumentais hip hop. Liricamente, é igualmente abrangente: tanto pode ir do registo de punchlines aos temas mais interventivos, passando por canções sobre relações amorosas.