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Fotografia: Hugo Barros, Diogo Carvalho & Onun Trigueiros
Publicado a: 24/04/2020

Novo passo rumo a Meia Riba Kalxa.

[Estreia] Tristany sobre “Tirante”: “Isto é dar cor a quem vive a sépia”

Fotografia: Hugo Barros, Diogo Carvalho & Onun Trigueiros
Publicado a: 24/04/2020

“Tirante” é o novo avanço que Tristany dá na caminhada para o lançamento de Meia Riba Kalxa, o álbum de estreia agendado para sair no mês de Junho.

Acompanhado por um videoclipe, “Tirante” é o culminar de Baxu Ku Riba, mini-série que o artista multi-disciplinar de Mem Martins criou em colaboração com Diogo Carvalho e Onun Trigueiros, cujos quatro episódios foram aterrando diariamente no YouTube durante esta semana. A banda sonora original da trama foi ainda compilada num EP que serve de aperitivo para o tão aguardado primeiro disco do MC, cantor e produtor.

Macario, Idriza, Zidane e o próprio Tristany foram as quatro personagens que conhecemos em cada um dos episódios de Baxu Ku Riba, um projecto que aborda a liberdade na semana em que comemoramos o 25 e Abril, em jeito de paralelismo com a actual situação pandémica que o planeta atravessa, e também um mote dado pelo artista como apelo a um tirante à escala global, numa tentativa de restabelecer a igualdade entre as várias camadas da nossa sociedade.

Adoptando as devidas medidas de segurança, falámos com Tristany sobre a série e o seu mais recente single. Sem promessas acerca de datas exactas, o músico deixou no ar a ideia de Meia Riba Kalxa chegar às ruas durante o mês de Junho, depois de, em Maio próximo, ir dar a conhecer um novo avanço do LP:  uma faixa criada a meias com dois nomes de gerações distintas mas ambos sonantes na cultura hip hop em Portugal.



Antes de mais, como é que nasceu a ideia para esta série?

A ideia inicial era lançar apenas o single. A produção toda do videoclipe do “Tirante” demorou um ano. E foi interessante a maneira como gravámos, com quem gravámos e as coisas que passámos até ao renderizar o vídeo. Tínhamos bué material. Depois de se dar esta cena do [novo]coronavírus, nós pensámos: “já que temos este material, vamos criar algo que seja mais do que um videoclipe”. Não com o propósito de entreter as pessoas, mas achámos que só o videoclipe não defendia na totalidade cada personagem e a mensagem que nós queríamos passar. Acho que, com esta mini-série, vamos poder dar uma atmosfera mais completa a cada um e ao cenário todo do “Tirante”.

Então, o videoclipe já estava terminado e com esse tal material de sobra “esticaram” o conceito para uma série, é isso?

Eu, o Nuno e o Diogo reunimos-nos para fazer o videoclipe. A maneira como o Diogo organizou o videoclipe foi, tipo, por acções. Fomos com o Russostreet e com o Idi à praia. Então, nós temos uma cena com eles os dois na praia e, só aquilo, já dava para um pequeno documentário deles ou uma pequena série sobre os dois. E tínhamos bué tempo de vídeo só com essas coisas. De repente queríamos meter aquilo tudo num videoclipe e não deu. “Então, o que é que vamos fazer agora?” As pessoas que nós filmámos são vidas. São vidas de seres como nós. E com toda esta cena da quarentena, se calhar, quem está em casa consegue ver como é que estas pessoas se sentem. O facto das pessoas não poderem sair de casa remete-nos um pouco para a ideia de prisão. Ou o facto das pessoas andarem distantes umas das outras e haver sempre aquela desconfiança. As pessoas estão em casa, confortáveis no seu desconforto, e de repente estão a ver uma coisa que sai antes do Dia da Liberdade… Não foi uma cena que foi bué pensada, tipo que eu, o Diogo e o Nuno já sabíamos que isto da pandemia ia acontecer… [risos] Mas, realmente, aconteceu para isso.

E a mini-série acaba por ser também uma oportunidade para te mostrares às pessoas num EP que antecede o teu disco de estreia, já que a banda sonora é composta por temas que ficaram de fora do Meia Riba Kalxa. Estas criações são da altura em que estavas a compor o álbum ou surgiram depois?

Tal como o Diogo e o Nuno tiveram de começar a montar tudo isto desde Março, eu também me dediquei à criação destes temas durante esse mesmo período. São tudo músicas novas mas… isto parece uma coisa bué esotérica, porque eu fui tentar buscar ao máximo o meu “eu” passado quando fiz o “Tirante”. O mesmo registo, o mesmo pensamento, a maneira como eu era. Tentar canalizar essas sensações que eu vivia na altura para não soar àquilo que eu soaria actualmente.

Ou seja, tu neste momento já notas que, sem essa condicionante, farias algo completamente diferente?

Ya, ya. E há cenas aqui que são diferentes. És sempre afectado por factores actuais. Até porque neste último ano tudo mudou. A primeira vez que abordámos o Idi e o Russo para estas filmagens foi antes de eu fazer uma viagem para Angola. Só quando eu volto é que nós começámos mesmo a filmar. Isto é só um exemplo. De há um ano para cá, bué cenas mudaram. Eles emigraram, cresceram como pessoas… O Idi, o Russo e o Zidane, apesar de serem mais novos, ensinaram-nos bué coisas. Conseguimos também, de alguma maneira, aprender com eles. Não sei. Acho que foi bué estimulante para todos e nós estamos todos na mesma frequência de pensamento. Tudo evoluiu e a sonoridade também foi afectada por isso.

Quando anunciaste a série, provavelmente toda a gente a imaginou num formato mais tradicional, com uma narrativa. Não o fizeste e acho que deste ainda mais força ao teu universo sónico e visual, que já estava bastante vincado dos singles anteriores. Querias dar azo a que cada um dos espectadores pudesse tirar as suas próprias ilações?

Ya. É isso. Da mesma maneira que nós estamos a gravar esta conversa e eu estou de máscara por causa do coronavirus [risos]. As pessoas não o saberiam se eu não o dissesse. Ao ouvirem a música, há muitas coisas que estão por trás, que eu canto mas que não estão explicitas. Eu quero que elas não sejam explícitas. Porque acho que é como um livro — o último autor é quem o lê. Quero fazer isso. Quero que as pessoas tomem as suas ilações. E o Diogo e o Nuno também. Isto foi uma construção, não foi uma ideia.

Mas imagina que tinhas de escrever um press-release ou uma introdução para esta obra. De que forma é que a apresentavas?

Esta música não é para empoderar as pessoas que praticam esta acção na rua. Isto é uma situação que acontece frequentemente durante a adolescência e, por causa disso, muitas pessoas vão presas, outras têm alguns desacatos. É através deste acto, do tirante, que por vezes surgem consequências negativas. Isto sempre me fez pensar: as pessoas por estarem a fazer este tipo de coisas, por muito má que seja a vida de cada um, têm de estar num determinado estado. Não digo que seja um estado de loucura gigante. Isso seria matar alguém. O tirante é uma situação que a mim me atrai, só pelo facto de aquela pessoa estar a tirar algo que, no fundo, lhe tiraram. Estás a ver? Aquele ouro, aquela pessoa, aquela vida… Eu não estou a defender o bandido, mas quero bué que esse acto, do tirante, seja uma coisa maior. Quero, sim, empoderar as pessoas para que façam o seu tirante virtual, hipotético, a uma escala maior. Quero que essas pessoas ganhem algo. Basicamente, isto é dar cor a quem vive a sépia.


Tristany reflecte sobre liberdade com mini-série no YouTube

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