[A Odisseia Psicopimba entre Seringas, Sardinhas e Saudações de Madame de Pompadour]
Se por acaso tropeçarmos numa gravação dos Ena Pá 2000, mais vale ter a certeza de que estamos prontos para uma experiência absolutamente inusitada, onde o nonsense coabita com o surrealismo e a verborreia poética de Manuel João Vieira transforma-se num verdadeiro festival de malcriadice e calão. Fundados em 1984, estes senhores da Foz do Arelho, que mais parecem saídos de um manicómio lisboeta, têm passado as últimas décadas a subverter tudo o que é considerado “bom gosto”, enquanto nos fazem rir à gargalhada com uma crueza só equiparável ao humor de um Bukowski bêbado num bar de striptease.
Liderados pelo mestre da provocação, Manuel João Vieira, um artista plástico e músico que combina na perfeição a sofisticação da Escola Superior de Belas-Artes com a arte de mandar umas boas bocas, os Ena Pá 2000 fazem da música uma espécie de culto ao desbocado. Vieira, que já se autoproclamou de Orgasmo Carlos, Lello Marmelo e mais uma dúzia de pseudónimos (provavelmente inventados durante ressacas devastadoras), é um verdadeiro embaixador do nonsense nacional. Ora surge de fato e gravata a perorar sobre as glórias da pátria, ora veste um traje de Super-Homem rasgado, cantando sobre penetrações doces e jactos de amor — tudo isso enquanto o público se debate entre o riso e o embaraço.
[Enapália 2000: O Ápice do Desvario Musical]
Se algum alienígena nos visitasse e pedisse uma prova da cultura popular portuguesa, provavelmente seria uma má ideia apresentar-lhe Enapália 2000. Entre malhões e polkas techno-pimba, este álbum redefine o conceito de “rock português”, ao mesmo tempo que sabota as suas bases com o tipo de humor que deixaria o próprio Fernando Pessoa a rir-se com uma garrafa de absinto na mão.
Com canções como “És Muita Linda” — uma ode desengonçada à beleza feminina, ou talvez à cerveja que Vieira havia consumido antes de a escrever — os Ena Pá 2000 mostram que estão aqui para nos fazer lembrar que a música também pode ser uma piada de muito mau gosto. Mas uma piada deliciosa, diga-se. É nesse universo, em que o calão e a pornografia suave se entrelaçam com as guitarras distorcidas e as percussões raivosas, que a banda ganha o seu lugar de destaque na galeria dos desajustados musicais de Portugal.
[O Mestre dos Provérbios Sujos: Manuel João Vieira]
Não se pode falar dos Ena Pá 2000 sem reconhecer a força gravitacional do seu mentor, Manuel João Vieira. Pintor, performer, agitador cultural, professor e, acima de tudo, um grande gozador. Vieira é o tipo de artista que tanto está exposto em Serralves como a cantar sobre “corpos a serem enfiados em locais anatómicos questionáveis”. A sua versatilidade criativa está apenas ao nível da sua falta de filtros sociais — algo que o torna irresistivelmente carismático.
Manuel João, ou melhor, Lello Minsk (um dos seus alter egos mais suaves), não tem medo de questionar as normas sociais através do humor mais cru. Aliás, ele prefere esventrá-las, rir-se dos seus despojos e atirar-nos para o chão com as suas performances. A solo, lançou Corações de Atum, um álbum tão desconcertante como sentimental, onde o kitsch encontra o existencialismo do fundo da garrafa. É a encarnação do ‘anti-herói’ português, o gajo que fala o que todos pensam mas têm medo de dizer, ao mesmo tempo que nos oferece uma lição de vida: que a verdadeira liberdade começa quando deixamos de nos levar a sério.
[Concerto na Bagaxeira: Uma Sessão de Exorcismo Colectivo]
Há algo de transcendental nos espectáculos dos Ena Pá 2000. São como uma missa negra celebrada num bar de alterne da Bagaxeira, onde o público, embriagado e confuso, é levado numa viagem sonora que atravessa o inferno e o absurdo. Ao som de reco-recos e campainhas de porta, Vieira e sua trupe de virtuosos do caos conduzem-nos por um labirinto de ritmos desconexos, letras que seriam censuradas em qualquer canal de televisão decente, e interlúdios que fazem o Malato parecer um orador shakespeariano.
E depois há as “merdalhas” — sim, porque não são medalhas, são prémios dignos da realeza suja da música alternativa. Na sua garagem de Leiria, estes senhores de “baixo interesse nacional” (segundo o fictício governo da Bagaxeira) produzem peças de arte sonora que nada têm a provar, porque já se auto-sabotam com brilhantismo. E nós, sortudos mortais, somos convidados para este circo — onde sardinhas são colhidas no alto mar, e onde o testículo direito de cada músico é celebrado como um talismã de resistência.
[A Revolução Pimba: Música de Intervenção para Mortos-Vivos]
Apesar de todo o humor, as letras nonsense e os espectáculos dignos de uma ópera de circo, os Ena Pá 2000 sempre guardaram um elemento de intervenção. Não a intervenção de quem levanta punhos cerrados em manifestações, mas uma intervenção mental, uma espécie de revolução pimba que derruba a hipocrisia da sociedade portuguesa através do riso. É uma subversão tão eficaz quanto qualquer protesto de rua, porque a banda sabe que o riso é a arma mais poderosa de todas.
Manuel João Vieira, o homem que se candidatou à presidência com slogans como “Só desisto se for eleito”, é o avatar de uma geração que, farta das promessas vãs e dos heróis moribundos, decidiu virar o jogo. E virou. E continua a virar, enquanto os Ena Pá 2000 continuam a pedalar na bosta (literal e figurativamente), desafiando as normas e cantando as suas odes de mau gosto com a convicção de quem sabe que não há limites para a irreverência.
[O Testículo Eterno]
No final de contas, os Ena Pá 2000 são muito mais do que uma banda de rock. São um movimento, um estado de espírito, um testículo eterno que pende sobre a nossa sociedade, desafiando-nos a rir de nós mesmos e a celebrar a liberdade absoluta de dizer, fazer e ser o que nos der na real gana. Que continuem a pedalar, porque precisamos deles como nunca antes.
[A Multidimensionalidade do Humor Musical: Um Estudo Etnomusicológico Sobre O Álbum Bronco]
Entre as Margens da Bronquite Cultural e as Subtilezas da Pimbalhagem Contemporânea
A análise d’O Álbum Bronco dos Ena Pá 2000 exige um profundo entendimento da confluência entre o humor de intervenção e a manipulação linguística, particularmente no contexto do rock português. A presença provocadora de Manuel João Vieira como líder deste colectivo musical revela-se não apenas como um reflexo de tendências populares, mas como um agente subversivo que utiliza as estruturas normativas do humor brejeiro para questionar os valores sociais, culturais e mesmo fonéticos da língua portuguesa.
Estrutura Formal e Participações Ilustres
O sétimo disco da banda, O Álbum Bronco, apresenta uma sequência de 19 faixas, cujas numerações recuperam o curioso fenómeno do “zero duplo”, evidenciando uma prática arcaica de numerologia musical que remete às raízes da pimbalhagem barroca, onde a contagem dos temas espelha uma quase obsessão com o eterno retorno, ou o mito de Sísifo. A inclusão de faixas “escondidas” — um gesto pós-moderno — questiona o ouvinte atento sobre o que é tangível no universo sonoro ou meramente implícito no espaço liminar entre o “ouvido” e o “não ouvido”. A colaboração de figuras icónicas como Tim (Xutos e Pontapés) e Rui Reininho (GNR) proporciona ao álbum um toque de autoridade, reforçando a tese de que O Álbum Bronco transcende os limites do humor simples para se estabelecer como um documento de intervenção cultural.
A performance vocal de Tim é especialmente relevante na faixa “Um Gajo Normal”, onde a sua tessitura vocal encapsula o ethos do proletariado lusitano, ao mesmo tempo que brinca com a iconografia futebolística e romântica nacional. Rui Reininho, por sua vez, participa com um timbre que se aproxima de uma poética dodecafónica em “Pernas Abertas nas Desertas”, uma faixa que exige do ouvinte uma abordagem crítica às relações entre as convenções líricas do amor e o universo da confeitaria erótica.
Análise Lírico-Semântica
As letras, que os críticos superficiais podem identificar como “brejeiras”, são, na verdade, uma dissecação profunda da sociedade portuguesa contemporânea. Tomemos como exemplo o tema “És Muita Linda”, uma meditação em tom satírico sobre os ideais de beleza, onde Manuel João Vieira, utilizando um jogo de palavras engenhoso, revela a vacuidade dos elogios superficiais. A canção desconstrói a linguagem do desejo e da sedução, expondo a fragilidade da comunicação humana. O uso de termos como “muita” ao invés de “muito” aponta para uma subversão consciente da gramática normativa, estabelecendo uma nova ordem linguística que rejeita o formalismo académico em prol de uma autenticidade mais visceral.
O humor obsceno das faixas, que se poderia interpretar como desprovido de sofisticação, é, na verdade, uma arma poética que visa desafiar as fronteiras do decoro. Os Ena Pá 2000, ao contrário de outros projectos ditos “sérios”, não se contentam em seguir os preceitos da harmonia tradicional; eles introduzem dissonâncias estruturais, tanto líricas quanto musicais, que colocam o ouvinte numa posição desconfortável, obrigando-o a confrontar as convenções morais e estéticas estabelecidas.
O Uso da Satírica Instrumental
A instrumentação em O Álbum Bronco é igualmente revolucionária. A percussão desenfreada de Francisco Ferro (ou Ray Bonga, como é conhecido artisticamente) remete ao frenesi dos batuques tribais, trazendo à mente as tradições africanas que a música popular portuguesa tantas vezes marginalizou. A sua abordagem nas congas, no reco-reco, e em diversos objectos não convencionais cria um diálogo rítmico que só pode ser apreciado no contexto de uma análise etnomusicológica rigorosa, em que a transcendência da funcionalidade tradicional dos instrumentos se transforma em um comentário subversivo sobre o próprio conceito de música.
Adicionalmente, a guitarra de João Santos (ou Juanito Porkys del Mar, como ele preferencialmente se intitula nesta fase da sua carreira) evoca a tradição do fado vadio, enquanto simultaneamente abraça o rock psicadélico numa fusão que o teórico da música, por vezes desatento, poderia confundir com uma desconstrução harmónica. Na verdade, o que está em jogo aqui é uma reinterpretação das fronteiras musicais, onde o estilo pimba se entrelaça de maneira surpreendentemente eficaz com a herança psicadélica de Zappa, gerando um discurso musical que se move entre o profano e o sublime.
Entre o Bronco e o Erudito
O Álbum Bronco dos Ena Pá 2000 não é apenas uma obra de humor musical, mas um manifesto sonoro que questiona as normas sociais e culturais através da ironia e do sarcasmo. É uma peça que, à primeira audição, pode parecer frívola, mas que, através de uma escuta mais atenta e crítica, revela camadas de significação que dialogam tanto com o ethos popular quanto com as mais avançadas teorias de desconstrução musical.
Ao manipular a língua portuguesa e subverter as expectativas do rock tradicional, os Ena Pá 2000 criam um espaço onde o brejeiro e o erudito se encontram, provando que o humor é, de facto, uma ferramenta poderosa de crítica social e cultural. Neste sentido, O Álbum Bronco insere-se como um dos álbuns mais importantes do panorama musical português, uma peça fundamental para qualquer etnomusicólogo interessado nas fronteiras entre a música popular e as tradições eruditas.
[Manuel João Vieira e Ena Pá 2000: Entre Seringas, Sardinhas e as Saudações de Bocage]
Manuel João Vieira não nasceu, foi forjado. Em 1962, Lisboa foi abençoada com a chegada deste ser quase mitológico, que, desde cedo, percebeu que a arte de pintar e a de gozar a vida andam de mãos dadas, tal como o vinho tinto acompanha um bom jantar de sardinhas na brasa. Entre pinceladas e performances, Vieira rapidamente percebeu que o país precisava de algo mais do que fado e tristeza. Precisava de riso, de calão, e de uma banda que pudesse chocar as tias de Cascais sem perder a poesia. E assim nasceram os Ena Pá 2000, a sua primeira e maior arma de destruição cultural em massa.
Os Ena Pá 2000, liderados pelo agora multifacetado Orgasmo Carlos (também conhecido como Lello Marmelo ou Lello Minsk, conforme a lua), são uma banda que subverte tudo: desde a linguagem à decência pública, tudo é alvo das suas farpas. Uma banda que trabalha arduamente — pelo menos uma vez por semana — na tarefa nobre de combinar o rock com a capacidade inata do português para se meter em sarilhos com humor brejeiro. São, afinal, os filhos bastardos de Zappa e Bocage, mas com menos cabelo e mais calão.
As suas letras, recheadas de peripécias e aventuras absurdas, não são meramente canções; são tratados filosóficos sobre a condição humana no contexto do pimba e da poética erótica de baixa intensidade. Vieira, com a sua sagacidade mordaz, transforma cada refrão num estalo bem dado na cara da moralidade tradicional. Se não fosse pelo seu carisma, seria expulso de todos os salões de chá do país. Mas a sua presença é como um bom petisco: não se pode recusar, por mais picante que seja.
Com uma discografia que inclui títulos como Opus Gay e A Luta Continua!, os Ena Pá 2000 mostram que a irreverência pode, de facto, ser elevada a uma forma de arte. Tim e Rui Reininho, dois pesos pesados da música portuguesa, foram coniventes neste jogo de desbocada provocação, emprestando as suas vozes a faixas tão profundas como um poço sem fundo de duplo sentido.
E assim, entre concertos que mais parecem missas negras celebradas com cerveja barata, Vieira e os Ena Pá 2000 continuam a sua nobre missão de desconstruir a seriedade com humor, misturando bocas sujas com riffs bem afinados. São a banda sonora perfeita para aqueles que preferem rir em vez de chorar e que sabem que o rock, bem como a vida, é melhor quando apimentado com um pouco de indecência.
Em resumo, Manuel João Vieira e os Ena Pá 2000 são o que Portugal nunca pediu, mas secretamente sempre precisou: um lembrete constante de que, por vezes, a maior revolução acontece quando alguém decide cantar sobre sardinhas e testículos sem perder o ritmo.