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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 10/05/2024

Um dos mais "reais" do rap brasileiro.

Don L: “Se você faz uma coisa pensando somente na sua reputação, na verdade não vai mudar nada”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 10/05/2024

Com quase duas décadas de estrada, Don L, nome artístico de Gabriel Linhares da Rocha, conquistou um lugar de destaque no cenário do rap brasileiro. Desde o primeiro projeto, Costa a Costa, em 2004, quando trabalhou ao lado de nomes consolidados do rap no Ceará, como Nego Gallo, que Don L faz o legítimo rap brasileiro, que bebe de fontes verdadeiramente brasileiras. Já nessa época, as criações abordavam questões e resoluções da vida urbana, incorporando, além do rap e R&B, influências musicais do funk, samba, carimbó, além de outros estilos afro-latinos como mambo e reggaeton.

Seu mais recente trabalho solo, Roteiro Pra Aïnouz (Vol. 2), parte de uma trilogia invertida iniciada com Roteiro Pra Aïnouz (Vol. 3) em 2017. O álbum mergulha em narrativas de amor, resistência, drama e questões coletivas brasileiras que vêm de um passado colonial mal resolvido, enquanto narra um Brasil pós revolução. O comprometimento de Don L com suas convicções políticas é evidente em suas letras, que servem como um espelho da realidade das muitas periferias brasileiras e suas particularidades, além de desafiar as estruturas de poder estabelecidas.

Com uma base bem sólida de fãs no Brasil, Don L agora traz sua música pela primeira vez para o solo europeu. Em entrevista exclusiva ao Rimas e Batidas, o artista relembra sua trajetória, suas aspirações e inspirações e conta quais as expectativas para os concertos por aqui.



Bom, para começar, queria que você contasse para as pessoas aqui como foi a evolução do seu estilo musical ao longo dos seus álbuns, desde os primeiros trabalhos solo até os mais recentes.

Tem duas coisas que andam em paralelo: eu sempre fui rapper e produtor. Quando eu comecei, eu participava de um hip hop que era tanto movimento social quanto movimento cultural. A gente começou seguindo uma linha que era muito politizada em Fortaleza, a gente se organizava em posses e eu participava da posse do meu bairro. Eu queria me envolver ali e eu escrevia umas rimas, mas era umas rimas mais bandidas e o movimento da cidade era muito mais politizado, então eu achava que eu não me encaixava e eu queria participar como produtor, então comecei a colar com os caras e aprendi a produzir. Eu comecei tentando criar a minha própria sonoridade, tentando ser produtor, até para eu mesmo conseguir extravasar minhas próprias rimas, eu nem pensava em lançar. Foi assim que eu comecei e eu sempre tive essa busca de fazer algo original. No Costa a Costa, por exemplo, você vai perceber que as músicas têm muita influência brasileira, principalmente do norte e nordeste do Brasil, tem sample de carimbó, sample de brega, que são as músicas que costumavam tocar nas periferias do Norte e Nordeste do Brasil. Às vezes são umas músicas mais antigas, que seriam como o soul é para os americanos, música que as pessoas mais velhas escutam. Eu tentava usar isso para fazer recorte de sample, para criar uma sonoridade minha, brasileira e de Fortaleza. Em paralelo a isso, desenvolver o meu estilo de flow, de rima que também tem a ver com meu sotaque, com a cadência brasileira. Mas eu não queria me prender aos estereótipos de que para ser brasileiro precisa ter um pandeiro, um cavaquinho… Sempre achei isso uma caricatura empobrecida. Fui evoluindo nisso, gravei essa mixtape no Costa a Costa, depois veio o Caro Vapor, que é mais livre nesse sentido, e RPA3 também trazendo outros elementos da música mundial… É um pouco da minha busca, é como se fosse uma versão 2024 da mesma busca que a gente já teve com diversos artistas brasileiros, principalmente na tropicália — artistas como Caetano e Gil, eles ouviam o que estava acontecendo no mundo, chamavam de movimento antropofágico, de você comer esse caldo de cultura e transformar em algo totalmente seu, se apropriar disso da nossa maneira. Eu acho que eu fiz muito isso em Caro Vapor, depois em RPA3… Em RPA2 eu vim mais maduro nisso e com um conteúdo mais político, eu quis dialogar bastante com o que estava fazendo sucesso no meu seguimento de rap ou, sei lá, como queiram chamar esse caldo cultural que tem o rap, o R&B, o funk, o piseiro, o brega de Recife… Dentro desse caldo cultural eu quis fazer um disco que, como ele tinha o conteúdo político muito forte, dialogasse com coisas que estavam muito pop no momento, mas de uma forma muito brasileira, por exemplo, tem o drill com funk… Até chegar agora, que estou fazendo o Caro Vapor 2 e estou me sentindo mais pronto e maduro para fazer uma coisa mais autêntica nesse sentido, eu quero fazer algo que seja inconfundivelmente meu, minha sonoridade… Se você ouve “Tudo é Pra Sempre Agora” e “Bem Alto”, são coisas que não existem, que eu criei a partir do que eu venho bebendo desse movimento antropofágico que é digerir o que é a cultura hip hop pelo mundo. Esse é um resumo do que eu venho fazendo… [Risos]

Em “Bem Alto”, uma coisa que me chamou muito a atenção foi o fato de você ter assumido tantos papéis diferentes, desde a composição até a produção, percussão, teclados, enfim… Como você equilibrou todas essas funções? Por que essa escolha?

Bom, na verdade, eu já fiz isso muitas vezes, mas agora eu decidi desenhar pras pessoas entenderem [risos]. Às vezes você coloca “produção” ou “beat” por mim e na música tem tudo isso lá, mas você não discrimina. Em RPA2 tem várias músicas que eu fiz a percussão, toquei um teclado e aí o Nave fez uma pós-produção. E eu dessa vez resolvi escrever pras pessoas entenderem, às vezes a gente precisa mesmo falar pras pessoas entenderem… Se você for comparar com os gringos, a gente produz pouco material sobre nós mesmos. Equilibrar isso tudo é o ofício de produzir uma música. Eu tô voltando com mais propriedade agora porque antes eu fazia muito rascunho e mandava para outros produtores lapidarem e tal, principalmente no RPA2 que foi o Nave que produziu. Agora, essas músicas eu assumi realmente a produção, foi eu que organizei tudo, fiz um rascunho inteiro, fiz um mapa todo e aí depois a gente chama os músicos, chama um tecladista, um percussionista…

Tem um tweet seu que eu gosto muito, pedindo que as pessoas não associem seu rap ao “rap consciente” por achar isso velho e chato. Se a gente for refletir, o que era tido há alguns anos atrás como rap consciente é algo muito moralista e carregado de preconceito, certo? Dessa forma, como você analisa o que você faz hoje no rap? Como você descreveria?

Isso faz muito parte da minha história, porque eu vim de uma tradição de hip hop muito politizado e eu era o cara da rima bandida, eu gostava muito do conteúdo, eu acreditava na causa, mas musicalmente não era um bagulho que me emocionava. Queria fazer as coisas que meu coração mandava e que me emocionavam. Eu comecei sendo o cara da rima bandida, mas utilizando desse aprendizado, porque você entrava no rap e tinha algumas coisas que você tinha que saber, você era “obrigado” a ler algumas coisas, assistir alguns filmes e documentários para entender onde você estava pisando. E aí eu fui seguindo nessa linha, nessa coisa que bebe de uma visão política, mas mais responsável de entender o mundo que você vive, para onde você quer direcionar as suas ideias mas ao mesmo tempo ser música que vai do pessoal ao universal. Essa sempre foi a minha busca, mas tem uma galera que, às vezes… É natural as simplificações e as caricaturas, mas as pessoas vêem que tem um conteúdo e acham que aquilo ali é uma coisa panfletária. Quem me conheceu no RPA2, que é um disco altamente político, às vezes não sacava meu trampo, acha que Caro Vapor vai pro lado do hedonismo, mas não, Caro Vapor é um disco altamente político, mas que está nas entrelinhas. Ele tem várias camadas. E muita gente só foi entender ele depois de ouvir o RPA2, que eu falo de política, que tem essa “consciência política”, mas é dentro de um conteúdo artístico muito elaborado, eu imagino um outro mundo possível, que eu volto no passado para falar do futuro criando uma outra realidade presente pós revolucionária, como se eu estivesse em outro tempo, num cenário favorável para uma mudança política de um Brasil revolucionário. É totalmente diferente de eu chegar numa música e dizer “vamos lá galera, vamos fazer tal parada”, como se fosse um grito de ordem [risos].

Você ficou conhecido como “o favorito do seu favorito” por se tornar um artista que inspirou tantos outros que atingiram uma grande dimensão. Como tem sido carregar essa importância, aliado às questões políticas que você traz para o centro do debate?

Eu acho que sempre tive esse papel de apontar um caminho na cena, porque às vezes todo mundo está indo por um caminho que é interessante e ele vai se deturpando. Como tudo nesse mundo que é totalmente digerido por um mercado, as coisas vão perdendo o sentido, as palavras vão perdendo o sentido, vão sendo engolidas pelo capitalismo e viram um produto. Tudo vira produto. Eu acho que sempre tive esse papel de elaborar uma saída e ser propositivo. Em RPA2 eu fiz muito isso, a gente estava em um momento de sequestro de pautas políticas, uma abordagem muito liberal para falar de inclusão, de ideias anticoloniais que acabam se tornando propaganda e produtos, que viram um post de uma marca que, não só não tem nada a ver com a causa, como muitas delas são diretamente responsáveis pelo que a causa luta contra. É até irônico, mas é a forma como o sistema é gerido, eu também estou sujeito às contradições. Não é como se a gente tivesse que ser radical sozinho, eu não acredito nessa radicalidade individual, nesse papo moralista de “ah, não vou fazer tal coisa, não vou trabalhar com tal marca”, porque também é vazio, você cai numa coisa meio do ego fazendo uma coisa pensando somente na sua reputação, porque na verdade não vai mudar nada. Se você não tem participação numa casa coletiva e está fazendo um ato individual, isso também não vai mudar o mundo. Eu vi que existia uma lacuna, que ninguém estava falando sobre isso, já que está tão na moda dizer que ninguém aguenta mais o sistema que a gente vive, já que todo mundo quer encontrar uma forma de dizer que não participa ou que não quer participar disso, então pensei: “Deixa eu dizer o que eu também aprendi nessa caminhada, que se a gente quiser mesmo uma mudança ela tem que ser coletiva, com organização coletiva e radical”.

Você acha que foi educando seu público para receber isso? Ou acredita que ele já espera isso de você?

Eu acho que fui educando, sim, mas ao mesmo tempo eu sempre estou buscando novos públicos. Minha dificuldade é conseguir chegar em mais pessoas que vão receber essas ideias pela primeira vez. Eu tive uma ascensão na minha carreira que foi degrau por degrau, mas eu nunca regredi, sempre aumentei meu público. Então é importante pra mim que essas pessoas que chegam agora, cheguem por esses motivos, porque eu me mantenho atual, me mantenho relevante e faço uma música que conversa com o que a molecada está fazendo agora. Estou conversando com o João Gomes, com o BK, com a Raquel Reis, com o Zudzilla, com todo mundo que está fazendo algo que eu considero relevante. E essa galera que está chegando e sente que tem alguma coisa nova na minha música, ela vai sacar que é diferente, vai querer ver o que mais eu já fiz, o que eu digo…



Em relação à sua trajetória, quais foram os momentos mais significativos e decisivos que te levaram a se tornar o artista que é hoje?

Essa é uma pergunta muito difícil pra mim, porque eu não tive ascensão meteórica em nenhum momento. Quando eu fiz uma coisa um pouco mais popular, tipo Poesia Acústica, foi o Poesia Acústica menos pop que já existiu, que era uma coisa muito mais conceitual, nem era violão [risos]. Mas ainda assim abre uma nova frente de público, teve uma galera que me conheceu ali, teve uma galera que me conheceu através de feats que eu fiz com artistas mais populares e tal… Eu acho que o principal mesmo no meu trabalho é a consistência, trazer álbuns que são álbuns, que são relevantes, que quando saem mudam a cena do rap brasileiro — e isso já é reconhecido. Por muito tempo a galera meio que não assumia isso por eu ser um cara de Fortaleza, do Nordeste e tal. Agora já é uma coisa mais difundida.

Esse é um desafio enorme que a gente tem: trazer a mesma visibilidade do eixo Sudeste para as outras regiões do Brasil.

Sim, sim, sim, mas ao mesmo tempo é muito difícil porque a gente tem uma disparidade econômica enorme, em primeiro lugar. A gente precisava de atitudes mais econômicas no Brasil em relação à cultura. As discussões que estão sendo feitas acabam nos concretizando, então é muito difícil mudar essa situação sem ter um plano que passa por iniciativas públicas, sem projetos de incentivo à cultura, sabe? Tudo isso precisa de grana. É totalmente louvável o esforço de quem tenta mudar isso, mas o que precisa mesmo é de grana. Não tem como você competir com lugar que concentra todos os recursos e que também é muito pouco, ainda não é como se fosse grandes coisas… Quando a gente fala do privilégio do Sudeste, é o privilégio de estar perto de um bairro minúsculo, que deve concentrar todos os recursos, toda a especulação imobiliária, todas as linhas de metrô… E aí você tem a periferia enorme, que concentra maior parte da população, e que não vive essa realidade, esse dinheiro não chega pra eles. Falar sobre mudança de perspectiva cultural e regional no Brasil, como tudo, é falar de mudanças políticas.

Como você vê o futuro do rap no Brasil em meio a isso?

Eu não estou muito otimista com o Brasil em si, eu não consigo separar as coisas. A gente está num governo de coalizão, que teve que se vender muito para o neoliberalismo, um governo com muitas medidas neoliberais, e isso é muito perigoso. Isso obviamente coloca poder na mão de forças que são contrárias ao nosso desenvolvimento. Se você dá mais poder para o agronegócio e para setores mais conservadores da sociedade, o rap perde poder ou se torna mais conservador. Ao mesmo tempo, cultura é algo muito imprevisível. Em momentos de maior repressão a gente teve movimentos culturais super valiosos e importantes, então eu também acredito que pode surgir um movimento de resposta a tudo isso, pessoas pra fazer isso e pode ser interessante… Mas como sempre, precisa de recurso. Hoje em dia, música e tecnologia andam juntos e o Brasil tem um problema que nos prejudica muito nesse sentido. Temos uma taxa de importação que é uma das maiores do mundo, então muitas vezes para ter um microfone, acabamos pagando 10x mais do que ele realmente vale para ter uma produção com um certo nível de qualidade. Então você elitiza esse acesso, não existe um projeto de industrialização brasileiro para que a gente tenha produtos competitivos nesse cenário, e isso dificulta mais ainda que surjam movimentos de contracultura com algum acesso… Para produzir um clipe, gravar uma música você, acaba tendo que se aliar com quem tem essas condições — e quem tem essas condições, normalmente está do lado oposto dos nossos interesses.

RPA2 veio na contramão de um discurso neoliberal que valoriza muito as conquistas individuais e coloca uns contra os outros. A gente percebe que por mais que esse seja o discurso predominante também existe um forte apelo para as conquistas coletivas, já que RPA2 foi tão bem recebido…

Existe sim! Esse discurso individualista simula ao mesmo tempo um discurso de coletividade, esse assunto de todos contra todos não seduz ninguém, ninguém quer viver paranóico e pensando que você tem que ser o mais foda, que você vai ficar solitário e não tem nem como ter amigos, porque não tem espaço pra todo mundo vencer. Isso não seduz ninguém. Mas isso se torna um discurso do tipo: “Eu venci porque eu vim de baixo, então se você também vem você também pode — você que vem de onde eu venho, você que tem a cor da minha pele, você que sofre preconceito na sociedade… Você pode conseguir assim como eu consegui.” Então você traz esse apelo para um tipo de pauta coletiva e leva isso para um caminho totalmente individual. Foi isso que eu quis mostrar, que isso é uma computação de um discurso que, na verdade, não funciona. Se isso é sua escolha, ok, mas vamos deixar isso claro para a molecada não ficar boiando nas ideias, achando que isso existe, porque não existe. Aí depois se decepciona com o ídolo, porque o ídolo está rico e nem aí para todas as causas com as quais ele cresceu (e se tornou rico defendendo). É óbvio que isso ia acontecer. Não é nem que o cara está mentindo, mas isso está no discurso, você é que não viu e não prestou atenção [risos].

Como está sendo essa experiência de trazer a sua música pela primeira vez para Europa?

É bem desafiador, sim, e é interessante… Eu sempre fico tentando absorver a cultura, estudar a história dos lugares por onde eu passo, como foi construído, como se tornou o que é hoje, ver quem são as pessoas que me conhecem aqui, tentar chegar em mais gente… A gente tem uma barreira linguística muito grande num mundo totalmente dominado e colonizado pelos americanos culturalmente. Eu passei por Veneza, Roma, agora estou em Barcelona, passei pelo aeroporto de Paris, e nesses lugares praticamente eu não ouvi músicas que não fossem em inglês. Esse mundo dominado culturalmente dificulta muito que um artista como eu, que fala português brasileiro — e de rua, ainda por cima —, tendo a minha letra como uma das coisas mais importantes, chegue em outros espaços. O que eu tento fazer cada vez mais é que a sonoridade seja muito sedutora, porque eu quero chegar num nível dos caras como Jorge Ben Jor, Caetano, que rodaram o mundo cantando em português brasileiro.

Por fim, queria que você deixasse uma mensagem pro público daqui…

Em primeiro lugar, obrigado, porque eu só estou aqui por causa de vocês que curtem. E compareçam em Lisboa e no Porto. Tô ansioso pra ver quem são vocês que curtem meu trabalho por aqui!


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