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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 02/04/2025

Um reforço de Leonardo Pereira aos discos de hip hop que ficaram pelo caminho.

Burburinho: Março 2025

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 02/04/2025

Em Burburinho, Leonardo Pereira olha pelo retrovisor e oferece destaque aos discos — muitas vezes não tão óbvios — que mais o marcaram ao longo do mês anterior, com especial enfoque para tudo aquilo que se vai colhendo nos campos do hip hop. Sem restrições ao nível da estética, por aqui vão cruzar-se propostas que vão desde o mais clássico boom bap às cadências soulful que aproximam o género do R&B, não esquecendo nunca as reformulações mais modernas do som nascido em Nova Iorque, que hoje gera infindáveis ecos a partir de qualquer cidade à volta do globo através das visões gélidas do trap ou do drill.


[Slim Guerilla] Game Ain’t The Same

Talvez um álbum nunca tenha soado tão houstoniano. Percebe-se que a música texana — e, especificamente, o hip hop — assim cresceu para chegar a um ponto em que sabe a um gélido copo de água num dia de verão. O sol abrasador do árido sul americano sente-se nos tons quase sussurrados por Slim Guerilla e compreende-se que, para ali sobreviver, a música terá que refrescar.

O que dizer? É hip hop sulista, puro e duro, com percussão pouco interessada em abater, sintetizadores a pavimentar uma estrada instrumental sem buracos e sem curvas, com o descapotável a deslizar por ruas pouco ocupadas. O planeamento civil esteve a cargo de Tavaras Jordan, produtor executivo do disco, que construiu estas urbanizações sonoras com Freddy River, Alijah4k, Luka Burr, Tay Zacari e DJ Idea.

Da parte de SG Rilla Mane, a flow tem apenas o objetivo de hipnotizar para um estado de relaxamento nunca antes sentido — “Don’t Make $ Don’t Make Sense”, “Fly Dreams”, “Playa From the South”, “Iceberg Fubu”, e muitas outras são perfeitos exemplos do que se consegue atingir quando se é realmente chill. E por falar em destacar 5 faixas, são 18 no total do disco, compondo cerca de 40 minutos de música que passam num efémero instante. Experimentem ouvir e, ao mesmo tempo, experienciar o tempo passar. Não conseguirão.

Slim Guerilla aparece em 2013 e tem o seu grande breakthrough quando SpaceGhostPurrp o convida para os já defuntos Raider Klan por volta de 2015. Desde 2016 que não parou, com pelo menos um álbum por ano. O jogo já não é o mesmo, mas aqui acreditamos que SG tem os resultados para o ganhar de novo.


https://open.spotify.com/album/2AkszlufP2t2ZHfC8NKKvN?si=2509c8e0bf764f27

[clipping.] Dead Channel Sky

Se era praticamente indiscutível, agora é certo e sabido por todos os cantos do mundo. Não há ninguém a fazer hip- hop ao nível dos clipping., trio angelino formado por Daveed Diggs, Jonathan Snipes e William Hutson, que lançou este março o seu sexto longa-duração – Dead Channel Sky

O conceito desta vez é um que se aproxima de uma realidade completamente integrada por tecnologia, pintada de uma estética cyberpunk, onde os mais poderosos vigiam os oprimidos de todos os ângulos e em todos os segundos, a revolução é liderada por hackers, a exploração da nostalgia refere-se à grande explosão tecnológica dos anos 90 e os role-playing games começam a ser linguagem comum ou pelo menos conhecida pelas massas. A Internet torna-se um sítio físico e palpável para o planeta, e não só se começa a viver nela, também se começa a viver a vida através dela. É um disco que promove uma antologia de contos, onde os acontecimentos não são divididos por capítulos mas por temas, por vivências diferentes, pelo tipo de vida que é vivida naquele ponto específico que Diggs narra em cada uma das faixas. 

Não será difícil para o leitor imaginar, então, o tipo de ambiente que é cosido pelos produtores que mais uma vez se aproximam de um experimentalismo glitchy, desta feita apontada para o chiptune, o bitcrush e o 8-bit, desenhando vértices para todos os cantos deste mundo futurista através de um trabalho de percussão (mais uma vez) notável, percorrendo tons difusos a abrasivos de minuto em minuto. Em termos de raps, voltamos à mestria narrativa e cinemática de Daveed Diggs, que tem em si um talento aparentemente infinito para criar mundos e encontrar pontos de ligação entre a realidade, as memórias coletivas do ser humano, e narrativas de ficção. Não é trabalho fácil. 

Tal como todos os outros trabalhos de clipping., este é um que se baseia em temáticas históricas. Se Splendor & Misery é inspirado pela literatura de ficção científica de meados do século passado e os binários Visions of Bodies Being Burned e There Existed an Addiction to Blood são inspirados pelo horror gory e tudo o que lhe estava associado na sua génese e seguintes derivações, Dead Channel Sky usa o mundo tecnofuturista anunciado nos anos 90 através de headsets de realidade virtual cheios de botões, monitores CRT e edginess pubescente para explorar o resultado do futuro que era imaginado há 30 anos. 

Não me alongo mais nesta descrição, mas deixo-vos uma referência para suscitar a água na boca. Dead Channel Sky é um título recuperado da primeira linha de um dos primeiros romances que definiram o nascimento do cyberpunk, Neuromancer, escrito por William Gibson em 1984, que serve de final para esta crítica: “The sky above the port was the color of television, tuned to a dead channel.”


[Saba & No ID] From The Private Collection of Saba and No ID

Se Saba já deve ser um nome minimamente conhecido de quem dedica atenção às andanças do mundo do hip hop, não conhecer No ID, produtor lendário de Chicago e vice-presidente da Def Jam Recordings seria um crime. Todavia, este From The Private Collection of Saba and No ID talvez passará ao lado de muitos que o deviam estar a ouvir. E para isso, cá estamos nós, para vos relembrar daquilo que pode, por vezes, escapar à rede. 

A introversão natural de Saba não se resume a jovial, mas é um dos seus grandes semblantes. Também é de Chicago, e supomos que nos vinte anos que divergem as datas de nascimento entre rapper e produtor muito tenha mudado — embora a essência artística do hip hop de Chicago pareça manter-se. Talvez seja por aqui que os dois se encontram tão bem, mesmo apesar das décadas de história que os divide — ambos parecem apreciar a sua matéria prima tão profundamente como o outro. 

A lírica do MC nascido Tahj Malik Chandler descreve explorações de um mundo interior eloquentemente, como se de um sherpa a contar os declives dos Himalaias se tratasse; conhece as flows com que abençoa os instrumentais como se das suas melhores amigas se tratassem, e entoa a plenitude dos seus sentimentos com todas as sílabas.

Do outro lado da moeda, a experiência calejada do ouvido de No ID apresenta também ela uma jovialidade, mesmo depois de décadas no game. É boom bap original, em condição perfeita, com samplework cuidado e polido, acompanhando a emocionalidade de Saba e compondo o pano de fundo cénico necessário para estes dramas, romances e poemas se exaltarem. Alguém que se voluntarie para ser mecenas, que merecemos que esta coleção privada se nacionalize.


[YT] OI!

De nome real Tola Fola-Alade, o londrino explode em 2021 com “Arc’teryx”, um banger monocórdico que as massas no TikTok usaram e reusaram para uma panóplia de propósitos. Já tinha 2 anos de carreira nesse momento, e mais 4 passaram até esta OI!, uma mixtape de 12 faixas, a primeira desde 2023. Ainda esperamos o debut do inglês nos álbuns, mas já temos uma bela noção da festa que YT vai continuar a fazer.

É óbvio e imediato o impacto corporal que este tipo de música tem, puxando a estética do rage que Playboi Carti e Travis Scott começaram misturando-a com a repetição tradicional nos versos e com uma base eletrónica instrumental, ambos ingredientes base que formam o grime.  É esta a inovação que tem estado a acontecer na cena de hip hop/trap/etc. do Reino Unido — o caldeirão está a borbulhar com todas as correntes artísticas que lá se desenvolveram, importando umas quantas e exportando muita boa música. 19 produtores participaram no projeto e os features são assinados por quem tem feito mais para extrapolar a cultura do Reino Unido nos últimos tempos: Fimiguerrero, Len e Lancey Foux apresentam-se para a festividade e continuam o caminho de irmandade que se tem sentido com esta comunidade.

São quase 30 minutos de música que se recusa a diminuir as batidas por minuto, sugerindo que não há mesmo tempo para parar — seria um insulto à proposta de YT.

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