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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 15/03/2023

Um relato de quem trocou a raiva por sonhos.

Baco Exu do Blues: “Eu acredito no amor como ato político”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 15/03/2023

Poderão os lugares salvar-nos? A Bahia, a Meca negra, é feita de sonhos aos quais quero pertencer: sonhos de amor e regeneração, de cura e revolução. É horizonte e chão.

Existe um mar de crenças alheias onde boiam corpos náufragos de auto-estima, ancorados à ideia do que lhes dizem merecer e à realidade do que crêem merecer. Sobre âncoras sei duas coisas: a primeira, que devem ser fortes o suficiente para manter os navios estagnados; a segunda, que devem ser suscetíveis de serem içadas assim que o navio precisar de seguir o seu curso. O mesmo se aplica às âncoras que prendem as pessoas ao chão de si mesmas. Se nos impedem de avançar está na altura de as abandonar.

Munido somente com mundos mítico-simbólicos diferentes como o greco-romano (Baco), africano (Exu) e norte-americano (do Blues), QVVJFA? é o resultado do que seria se Audre Lorde e bell hooks tivessem investido numa carreira musical. Um grito de Wakanda emitido por uma laringe que há muito se queria libertar, que nos deixa presos à indecisão de lamentar os sentimentos que nos aproximam ou agradecer que não nos sintamos mais desamparados — e vai ecoar em palcos portugueses pela primeira vez já no próximo mês de Abril.

À semelhança do mito de Sísifo, também Baco carregava uma pedra – a raiva. Entre o concreto e o imaterial, a poesia dos deuses e os vícios, o direito à vida e o amor, aprende que existe um outro ponto de partida para a revolução. Confirma-se: cantar sobre amor talvez seja mais revolucionário.



No campo dos estudos sobre o hip-hop no Brasil, o rap já foi, inúmeras vezes, reconhecido como forma de educar ou de construir a subjetividade do “sujeito periférico”. No teu álbum Esú, também tu fazes uso de um “trap bate-cabeça” para te expressares. Fala-nos sobre como essa fase antecede aquela em que te encontras agora.

Foi a minha mudança da adolescência para a vida adulta. Eu era muito novo e, como pessoa jovem, traduzia tudo com muita raiva. Tinha muito ódio comigo e esse era o modo que utilizava para ver o mundo. Um Baco Exu do Blues consumido pela raiva de sofrer racismo, das vivências, de como as pessoas me enxergavam. Era um espelho refletindo o ódio pelo que sentiam ao olhar para mim.

Quando decides utilizar esse sentimento para abrires o teu mais recente álbum, QVVJFA?, com a frase “eu sinto tanta raiva que amar me parece errado”, fazes uma escolha de te apresentares de forma mais humana, mais frágil. Porquê esta escolha?

Todos nós, negros, somos ensinados, de certa forma, a tender mais para a raiva do que para o amor. O campo afetivo é uma barreira muito grande para nos acharmos merecedores desse amor. Quando eu partilho essa perspetiva, de que não quero ser só uma pessoa raivosa, é um processo doloroso porque entendo que as pessoas que me vêem como um vilão estavam a ter o que queriam: eu a ser um espelho da raiva. E, atenção, não é que essa raiva tenha sumido do meu corpo.

Que outros usos aprendeste a dar a uma emoção tão negativa como a raiva?

Da mesma forma que a raiva me habita, aprendi a dar espaço a outros sentimentos me habitarem, também, e me enxergar como um indivíduo e não como uma bandeira ambulante ou revolucionária. Eu nem estava saudável o suficiente para participar numa revolução, estava cego pela raiva. Querendo ou não, é muito difícil sair desse local quando você é vítima de racismo, intolerância religiosa ou até as agressões que certas falas e olhares praticam sobre ti no dia-a-dia. Consegui dividir-me entre essas duas pessoas: existe o Diogo que quem não conhece olha e pode ver como alguém impulsivo e existe o Diogo que eu sei que sou, negro de 27 anos, amoroso, que sonha constituir família e que ama os amigos; alguém que tem cuidado e responsabilidade com as pessoas ao seu redor e quer passar uma mensagem aos mais novos. Quando chega essa responsabilidade, de afeto comunitário com pessoas que se parecem comigo, chega também um peso na balança muito grande. Sinto muita raiva, mas também sinto muito amor, e eu só me focava na primeira. Agora preciso de espalhar um pouco de amor pelos meus semelhantes.

No teu processo de desconstrução, tendo como meta olhar para a vulnerabilidade como sinónimo de força, o que descobriste sobre ti?

Foi preciso entender que não é por eu não mostrar as minhas fraquezas que elas não existem. Entender a minha força real, quem eu sou, e saber até onde eu consigo ir para me defender a mim e para defender os meus. A minha força é a força das pessoas que me rodeiam. Quando eu entendi isso, permiti-me ver na vulnerabilidade não um caminho para a derrota, mas algo que me coloca no mundo de uma maneira mais forte. Conheço-me ainda mais e não tenho medo de mim.

Sei-te como crente no amor afrocentrado como parte da militância. Transformaste o amor num ato político?

Sim, eu acredito no amor como ato político, mas vou ainda mais longe: não é só sobre amor romântico como ato político; é sobre o amor próprio também. A primeira barreira que encontramos, como pessoas negras, é a de criar a nossa auto-estima. Eu parto do princípio que nos foi tirado o direito de sentir, de nos acharmos inteligentes, a nossa humanidade. Geralmente, somos colocados numa caixa reservada para a gente e contentamo-nos com o mínimo. Ao retomar o auto-cuidado e o amor próprio, não só entre nós, mas de nós para nós, resgatamos o que nos foi tirado e ganhamos força como indivíduos que, eventualmente, ganhamos enquanto movimento.

A tua escrita contém inúmeras referências a elementos da cultura afro-brasileira e da cultura negra na música, desde o pagode baiano às “festas de largo” e o próprio blues. Todos se apresentam como fortes influências. Ser nordestino num Brasil com uma ferida aberta, não causada por vocês [nordestinos], parece ser o teu fio condutor para de algum modo te curares. A Bahia é sempre uma constante.

Dentro do Brasil existem vários tipos de preconceito. Um deles é com a população nordestina. As pessoas do Sul são vistas como mais inteligentes, mais evoluídas, e nós como preguiçosos. Para além de termos de passar pelo preconceito racial, passamos por este também. Ser nordestino, para mim, é sobre lutar, sobre resistir, sobre povos que ascenderam, povos que construíram as grandes metrópoles brasileiras. Faz parte do meu ADN, não consigo desligá-lo do modo como imprimo as minhas emoções ou vivências. Ser baiano é das coisas que eu sou de melhor. Por lá, tudo é diferente do resto do mundo, não consigo explicar.

Na capa do teu álbum Esú, inseres “Esú” no meio da palavra “Jesus” (Jesús) — riscas com um “X” as letras “J” e “S” que formariam a palavra “Jesus”, colocando em evidencia “Esú”. Em Bluesman, afirmas que “Jesus é Blues”. No teu nome artístico tens Exu. O significado que dás aos símbolos das religiões de matriz afro-brasileira e a outros símbolos da negritude desafia, de certo modo, a ordem teológica mundial.

Aqui no Brasil há esta grande questão de também nos ter sido forçado o catolicismo e cristianismo, fruto do colonialismo. Existe um preconceito enraizado com religiões de matriz africana, que são demonizadas, vistas de uma forma pejorativa. Por exemplo, o meu nome ainda traz muitos problemas – o “Exu”. As pessoas tratam-no como se fosse o próprio diabo, como se fosse o causador dos principais males do mundo. Há quem não preste atenção às letras das minhas músicas e à mensagem que tento passar, tal como há quem tenha mudado a sua opinião ao ouvir com atenção. É importante que se entre em contacto com os nossos antepassados, com quem já andou por estas terras e o que eles fizeram. É uma batalha de vida, para mim, colocar-nos num lugar de respeito e descolonizar esse pensamento.

Em “Autoestima”, mencionas como pessoas negras muitas vezes se escondem através de um falso materialismo para esconder dores interiores, mas existem realmente outros modos de pensar esta questão quando vemos a origem deste materialismo como prova de sucesso ou de mobilidade social.

Sim. Tenho para mim que a ascensão financeira, para pessoas negras, é muito maior que só isso, não é só monetário. É uma forma de provar que independentemente do contexto que nos foi dado, de tudo estar contra a gente, nós conseguimos. Eu entendo a necessidade de se auto-mostrar quando se conquista algo grandioso. Se tu usas roupas de marca ou vês os teus pais, primos e etc. à tua volta a usar, é normal que aches normal. Quando nunca tiveste acesso àquilo e só viste em artistas, atores e depois te vês nesse lugar que sonhaste conquistar, é normal que escondas as tuas dores com bens materiais. Não estou a dizer que acho a atitude certa, mas consigo compreender a sua razão de ser.

“Foram 25 anos pra eu me achar lindo / Sempre tive o mesmo rosto, a moda que mudou de gosto / E agora querem que eu entenda seu afeto repentino / Eu só tô tentando achar a autoestima que roubaram de mim.“ No que diz respeito a auto-estima, lêem-se comentários engraçados nas tuas fotografias do Instagram, principalmente depois da tua mudança física. A tua mudança de imagem fez-te reavaliar o modo como tu te vias ou o modo como eras visto pelos outros?

Mais como os outros olhavam para mim. Vivemos num mundo que é encaixado em padrões e agora estou mais próximo de corresponder a um, as pessoas reagem a isso de forma “animalesca”. Não é propriamente consciente e eu sei disso, então também me retiro desse lugar, de achar que as pessoas o fazem com maldade. Da mesma forma que o racismo foi implantado na cabeça delas e elas só reagem.

A tua música já tem a sua quota de disruptiva e ainda te introduzes como o Kanye West da Bahia. Uma das qualidades que não lhe podemos negar é que sempre se manteve fiel àquilo em que acredita. Resta-nos saber: como te manténs fiel a ti num meio como a indústria musical?

Ignorando todas as polémicas que envolvem o Kanye West, ele, para mim, foi a prova de que tendo fé em ti, podes fazer coisas incríveis. É muito sobre isso quando me coloco nessa posição. Tenho uma fé na qualidade do meu trabalho, na minha arte e na minha equipa, que é quase como uma crença religiosa. Sei o meu valor e isso impede que me perca em comparações com outras pessoas dentro do meio. Quando crio, gosto de parar e criar algo que sinta ser meu, sem ter em conta se sou o primeiro, segundo ou terceiro a fazê-lo. Quero ser o melhor para mim da melhor forma possível.


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