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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 12/03/2021

Com mais recursos para enfrentar o futuro de frente.

Arraial na Arruada: uma consequência fonográfica da pandemia

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 12/03/2021

Um acto de coragem, no mínimo. A criação de um novo projecto em tempos pandémicos só pode vir associada a uma certa bravura, uma maneira de projectar esperança em terrenos de incerteza (mesmo que haja alguma bonança no horizonte). Por isso mesmo, o lançamento da Arraial, o novo braço editorial da agência Arruada, é um posicionamento destemido de quem não desiste (pelo contrário) perante as adversidades.

Na semana passada, a apresentação de “Vai a Serpente”, single que antecipa o novo disco de Domenico Lancellotti, Raio, previsto para estar cá fora no dia 26 de Março, marcou de forma oficial a abertura do catálogo da editora. O artista brasileiro é uma das três caras do arranque da Arraial — as outras são Churky (que acaba de lançar “mapa”) e Rita Vian, ambos com EPs na calha para saírem nos próximos meses.

Pedro Trigueiro, o homem do leme, tirou algum do seu tempo para nos explicar como tudo aconteceu, da necessidade de sentir que a editora é útil para o panorama à “marca muito própria” da autora de “Purga“.



[A utilidade da Arraial para o ecossistema musical]

“A Arraial é uma consequência de um trabalho que a Arruada tem vindo a fazer — com produção-executiva de discos de Buraka Som Sistema, Regula, Banda do Mar, Cristina Branco, muito por dentro do que é tudo o que está no pré de uma edição discográfica. E nesse sentido, isto do ponto-de-vista logístico/operacional, [este] é um domínio que a equipa já está por dentro. Nós entregamos as coisas sempre super redondas, a estratégia [já vai] toda afinada para que a coisa possa fluir. 

Isto já estava para existir e só não arrancou em Junho do ano passado porque não. Arranca agora e é uma consequência meio natural. Nós temos dentro da Arruada — [para] além deste lado operacional e de backoffice, digamos assim — a assessoria, que nos últimos anos tem trabalhado festivais como o EDP COOLJAZZ, o ID_NOLIMITS, o Novas Quintas Teatro Aveirense, livros.

Para resumir, a culpa é da team Arruada, não é tanto da pandemia. A culpa é delas porque, entretanto, durante a pandemia, estudaram muito (webinars, palestras, etc.) e isso deu muito músculo à equipa. O que era para ser uma provocação — ‘epá, um dia temos que pensar nisso’ –, acabou por se tornar real. E a a culpa é da equipa. E é uma reacção? Não. É mais uma consequência natural de tudo o que se está a viver, obviamente.

No limite, tanto para a Arruada como para a Arraial, tenho que sentir que nós somos úteis à equação. E se formos úteis, bora; se não formos, não nos metemos nisso. Não vale a pena.”

[A orientação editorial]

“Toda a gente sabe que editoras podem ser um bocadinho mais amplas — de vários estilos musicais — ou coisas mais focadas — do hip hop, do metal, do indie, do hardcore. Sempre houve essas assinaturas muito específicas, mas no nosso caso, assim como na Arruada, não temos o pensamento de que todos os artistas têm que ser iguais. O meu olhar é amplo. Tenho dificuldade em pensar que a música erudita poderá ter lugar. Mas não é por culpa da música erudita — por ser má ou por ser boa; é mais porque acho que não seremos mesmo úteis. Se olharmos para a Arruada, temos artistas de vários ângulos, de vários momentos e disciplinas musicais e culturais e, portanto, isso espelha-se na Arraial dessa maneira.”

[Domenico Lancellotti, o primeiro a chegar-se à frente]

“O Domenico veio de um assunto que se chama Domenico+2, Moreno +2 e Kassin +2, que nos deram três discos fundamentais da modernidade da música brasileira. E desde então que acompanho o trabalho que eles têm feito para modernizar standards e visões sobre a música popular brasileira. Calha [também] do Domenico ter vindo viver para Portugal, calha do Domenico estar no próximo disco da Mallu Magalhães e calha ele ter um disco do caraças que nos mostrou e que eu fiquei, ‘pá, mas o que fazer a isto?’ E ele, ‘Pedro, toda a estrada’. Se me dás toda a estrada, vou trabalhar nisso. Foi essa conjugação de forças. Vem do Brasil, mas vive em Portugal, e acho que isso é meio fundamental para este momento fundador da Arraial em que espera-se que o espectro não seja de um só lado, que seja um âmbito amplo em termos de procura musical e utilidade cultural. É esse o fundamento principal da Arraial também.”

[A reacção da Arruada aos tempos pandémicos]

“Se calhar não foi em Março do ano passado mas talvez em Abril, veio-me assim uma imagem da Fórmula 1, que é aquele aquecimento de pneus dos carros nas voltas. Quando aparece a luz verde, os carros estão prontos a arrancar e fazer as suas provas. Foi o que me aconteceu em Abril — pensei que deveríamos ter sempre os pneus quentes e prontos a arrancar, fosse em que situação fosse. E foi nesse sentido que olhei e pensei, ‘pronto, este é o primeiro desafio: não fechar a coisa’. Não olharmos para isto e dizer, ‘bom, vamos cruzar os braços e vamos ficar à espera que tudo isto passe e que depois apareça alguém com uma posição super incrível que nos vai ajudar a todos e está tudo resolvido’. Então, isso surgiu desde o início, dizendo assim. Depois foram desafios atrás de desafios: não há concertos, não há eventos, não há festivais, não há nada. O que é que pode haver mais? Estudar muito e melhorar muito as performances digitais de todos os artistas. 

Tenho um certo orgulho em sentir que não temos sido passivos de todo. Não tem sido a atitude nem a postura da equipa — ser passiva. Inventaram-se coisas, o Café Arruada, metemo-nos em concertos que se calhar não nos devíamos ter metido. E também quis passar essa mensagem aos artistas, de não nos resignarmos e reinventarmo-nos muito, uns mais quentes numas alturas, outros mais frios noutras. Mas tem sido esse o desafio, o da não-resignação. [É] complicado fazer as contas no final do dia, ao fim ao cabo isto é uma empresa e é preciso pagar ordenados. Mas também, e foi em Abril também que veio essa luz (como ao Luís Filipe Vieira), de olhar e pensar, ‘pá, se calhar o maior investimento que tem que se fazer neste momento é recursos humanos, por isso em vez de estar a dispensar pessoas é tentar encontrar espaço para pagar ordenados e trabalhar melhor com estas pessoas para podermos crescer’. Daí que volto a dizer que a culpa do Arraial é desta equipa, que se entusiasmou e seguiu em frente.”

[A grande aposta na singular Rita Vian]

“Conhecemo-la por causa dos Beautify Junkyards, e é curioso: estávamos a beber um copo no PARK e ela diz-me, ‘o que é que achas de eu lançar duas músicas para a semana?’ E eu… ‘acho terrível’ [risos]. Disse-lhe isso mesmo. E pedi-lhe para ouvir as músicas e fiquei, ‘espera aí, isto é qualquer coisa.’

A Rita está a iniciar um caminho que irá ser muito único, parece-me. Vai haver surpresas no EP — ela está a trabalhar agora nisso. Esse EP vai fazer uma certa mossa. Deposito um certo veneno no EP da Rita porque não há outro artista assim tão óbvio neste espectro — vai ali criar um certo campeonato com uma marca muito própria. E já houve pessoas como o Manel Cruz ou o Sérgio Godinho a dar-lhe os parabéns. Ela liga-se muito, a nível pessoal, com um certo universo electrónico, hip hop, música portuguesa, [o eixo] Lisboa-Porto e acho que isso reflecte-se muito na arte que ela está a tirar cá para fora.”


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