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Armani Caesar

The LIZ 2

Griselda / EMPIRE / 2022

Texto de Leonardo Pereira

Publicado a: 11/11/2022

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Na análise da Pitchfork ao último longa-duração de Armani Caesar, THE LIZ 2, lançado no 21 de Outubro, há uma referência muito perspicaz a Griselda Blanco, a “madrinha da cocaína“, e à sua história, uma mulher que criou o seu próprio trono no mundo do crime organizado e se coroou nele. É possível fazer um paralelismo com o percurso de Caesar, que conquistou o seu posto soberano tanto na editora nova-iorquina Griselda (sim, é mesmo daí que vem o nome) como no rap underground americano.

Este álbum é o segundo volume de THE LIZ e a mais recente entrada na discografia da MC de Buffalo e serve muito bem para estabelecer a sua presença na conversa sobre os melhores rappers do momento. Usando samples de diálogo entre mulheres e uma atitude que pareceria arrogante se não tivéssemos a certeza que Caesar realmente tem o poder para provar todos os seus argumentos, ficamos envolvidos numa viagem pelo seu cérebro e pela sua vida.

Passando por beats de Denny Laflare, Sovren, Daringer, Camoflauge Monk e outros, escolhidos a dedo pelo produtor-executivo do disco – Westside Gunn, também fundador e CEO da Griselda, vivemos na noite de Nova Iorque e somos apresentados tanto ao lifestyle nocturno de tempos passados, com samples luxuosos de funk e de disco, como às ruas da cidade. E um cheirinho a horrorcore de Memphis na produção (mas com as características habituais e urbanas do rap da costa este norte-americana), e de vez em quando somos interrompidos pelos diálogos e monólogos de mulheres pouco tolerantes a bullshit e que sabem muito bem o que valem.



As subject matters escolhidas são as que esperamos de um álbum da Griselda: o narcotráfico, a self-made wealth e o braggadocious monetário e sexual a subirem ao topo da lista de interesses, e Caesar a reforçar tudo isto tanto num registo de rap como em versos e refrões cantados, trocando de registo com uma facilidade e adaptabilidade às a melodias e percussões que não se pode comparar a muitas outras vozes, tanto femininas como masculinas. Aliado a esta troca de registo admirável, os flows de Armani não aborrecem e, nesta vertente, é capaz de ser a rapper mais tecnicamente dotada do colectivo em que se insere, e a que oferece mais variedade num projecto a solo.

Dentro do disco encontramos, como já esperaríamos de antemão, Westside Gunn, Benny The Butcher, Stove God Cooks e Conway The Machine a partilharem faixas, e todos a servirem versos razoáveis, mas sem nunca superarem Armani. Ouvimos também Kodak Black, BeatKing e Queendom Come a cuspirem barras, servindo de bela companhia à protagonista no que toca a colaborações um pouco inesperadas – Queendom anda a conquistar o Texas pouco a pouco e Kodak já é um nome de renome no panorama mundial (fez-se sentir mais do que uma vez em Mr. Morale & The Big Steppers).

Os fãs da Griselda continuam a estar muito bem servidos com este THE LIZ 2, o quarto álbum da editora em 2022, e provavelmente isso não vai mudar num futuro próximo, tendo em conta o crescimento do catálogo com cada vez mais projectos polidos e sólidos – mesmo que muitos dos seus temas sejam derivativos, não deixam de ser narrados com brio e com uma atenção ao detalhe e à técnica que não se vê em todo o lado.


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