LP / CD / Cassete / Digital

Ariana Grande

Positions

Republic Records / 2020

Texto de Pedro João Santos

Publicado a: 15/02/2021

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Muitos seguem o atalho entre Hollywood e trauma, mas Ariana Grande foi pela estrada panorâmica. Fez-se ícone da criançada no canal Nickelodeon; como uma pequena Mariah Carey, apertou o mundo juvenil à volta do seu melisma. Os discos de platina e os tablóides levaram-na de vento em popa, uma turbina que foi apenas interrompida em 2017 — com um concerto em Manchester que serviu de palco a um ataque terrorista. Dangerous Woman, o álbum em digressão, era “apenas” uma colecção pop sublimada e mais não passou a ser: superficial e sensual, não era exactamente um hinário para sobreviventes (será sempre incrível o que aconteceu no concerto para angariação de fundos, quando um estádio inteiro entoou “Side to Side”, aquela ode a mal conseguir andar depois de… enfim. Um bom manguito ao terrorismo, ao seu próprio jeito.) 

A tragédia grifou um ponto de inflexão na sua carreira, um empurrão para uma zona mais autoral — o que, curiosamente, e de forma não dissimilar a Beyoncé, coincidiu com a sua grande coroação. Grande compôs a sua própria música de sobrevivente: na franqueza carente de Sweetener (2018), com temperos de Pharrell – reavivando o digi-pop gaiato de Kelis –, expôs fracturas e lágrimas. Um ano depois, em thank u, next (2019), foi ainda mais temerária; a paleta sonora – drum pads e sintetizadores discretos – era mais limitada, mas as combinações eram mais expressivas, as emoções mais cruas. Num universo pop que se fez mais letárgico e triste, a música de Grande parece ter mais polpa. Em relativo soft focus, claro, ou esperavam Mount Eeriana? E, ainda assim, a eclosão de graves e violinos em “ghostin” soa a nada menos do que uma ferida em convulsão.

Positions, o seu terceiro LP em três anos, é o passo lógico a seguir: outro álbum que serve propósitos não apenas comerciais, especialmente o da jornada audioterapêutica (a natureza está a recuperar e cenas). Há declarações de auto-estima, confissões sem esgotamentos, sexo sem lascívia real – e, só de vez em quando, medo de compromisso e afecto diluído em dúvidas. Como pano de fundo, as batidas são homogéneas e competentes: os postulados mais sensíveis do hip hop corrente a abraçarem a fosforescência de uns violinos tímidos (trap de câmara?). Estranhamente para uma devota do género, estas permutações de r&b são presentistas, numa embriogénese quase extinta de contexto – tirando o orgásmico pastiche Aaliyah/Missy Elliott/Timbaland de “west side” – e sem apetite pelo futuro. 



O facto de ser homogéneo dá-lhe identidade, mas também transporta o risco de soar corriqueiro. É engraçado ouvir “motive”: noutros tempos, seria uma clara pretendente à pop de estádio como foram “into you” ou “greedy”; em Positions, fica-se por um balanço lo-fi, rejeita a house de alta costura, a troco de um desfile de pijama. Grande encontrou o seu embalo, é o que nos instam a dizer a auto-serenata de “just like magic” ou as missivas de “six thirty” e “nasty” (que compreendem que o amor produzido volta sempre às fontes). Todavia, quando já vimos Grande levitar para além da zona de conforto, há que desconfiar dos velhos truques. 

Não é que não resultem e, em pontos, é uma lapidação total. Lamente-se a inércia ou o cinzentismo da seda, mas Positions jorra mestria pop na mesma: tanto faz que as linhas melódicas sejam delicodoces (aquela bonita joelhada de “shut up”) como monumentais (o sopro do coração em “pov”). E eis onde entra, afinal, a bibliografia de r&b: Grande entende que a sua voz é capaz de fazer um disco – ou, melhor, uma só voz desmultiplicada e combinada em coros, harmonias de mel que deitam por terra os refrões oficiais (ouça-se em “love language” a forma como a artista completa a última sílaba de “It’s AG in your face”, num melisma sem cortes. Morrer assim, porque não?). É o óbvio produto de alguém que estudou as camadas vocais de Brandy e o ouvido para a melodia de SWV e India.Arie

Agora imaginem que encontra um novo ideólogo, tal como Aaliyah encontrou Missy Elliott e Timbaland? Se o som dos grilos em “west side” evoca One in a Million, talvez o próximo álbum seja o “disco vermelho” de Ariana Grande. Já é boa hora para uma posição mais aguerrida.


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