Os Apifera acabam de lançar o seu segundo álbum, Keep The Outside Open, através da Stones Throw, editora de Los Angeles, cidade em que o grupo israelita tem uma das suas bases. A outra é em Tel Aviv. A violência que decorre em Gaza leva o grupo a posicionar-se, garantindo que são pela paz e pela luz, nunca pela violência.
Nitai Hershkovits e Yonatan Albalak, os dois interlocutores com quem conversámos via Zoom, e ainda Yuvi Havkin e Amir Bresler completam este quarteto que cria música inspirada por diferentes correntes e momentos da história, do solarengo psicadelismo californiano ao lado mais exploratório do prog, com o jazz a ser o terreno comum que permite que os quatro membros, todos com percursos e backgrounds bem diferenciados, comuniquem entre si.
Uma das novidades neste novo trabalho é a adição de vozes ao que era originalmente uma fórmula instrumental. Explica-se nas notas de lançamento que “sessões de fumo pela noite dentro, passadas a rir de piadas de ‘pai’, deram origem a canções que misturam histórias pessoais da vida quotidiana com fantasia e personagens fictícias, e acenam ao poder curativo da natureza que se encontra por todo o lado”.
Como mencionado, estes são músicos com percursos próprios altamente diferenciados: Yuvi também responde ao nome Rejoicer, identidade com que lança música de cariz menos orgânico, mas ainda assim comum pé no jazz; Yonatan dá voz ao som pós-rock/psych jazz dos Geshem; Amir integra o Liquid Saloon, colectivo que cruza de forma bastante imaginativa afrobeat e jazz funk; e Nitai tem recolhido aplausos com os seus trabalhos de piano a solo, que incluem um álbum lançado em 2023 na prestigiada ECM. Avishai Cohen, trompetista de renome internacional, surge como convidado no tema que fecha o alinhamento do álbum, “Sera Sam”.
Já passou algum tempo desde que falámos na altura em que vocês lançaram o Overstand. Querem fazer-me um resumo daquilo por que têm passado desde que editaram o primeiro álbum?
[Yonatan Albalak] Então, nós lançámos o EP 6 Visits. É um disco de covers, com temas escritos por músicos de quem nós gostamos muito. Não demorámos muito tempo a fazê-lo. Apenas foi necessário decidir o que queríamos gravar e fizemo-lo em poucos dias. Depois começámos a trabalhar no segundo álbum, que demorou bastante tempo. Ele foi feito ao longo de dois períodos distintos: o primeiro foi aqui, em Israel, da mesma forma como fizemos o Overstand, a tocar juntos e a gravar; a seguir fomos para Los Angeles e testámos uma nova abordagem para escrever as canções. Enviámos essas duas sessões à Stones Throw e eles gostaram da direcção da coisa, mas pediram-nos para manter um certo foco naquilo que ia ser o material a editar. Mandaram-nos trabalhar ainda mais noutro tipo de material, que eu diria que é mais solarengo e menos cerebral — menos estranho e mais comunicativo, orientado para as canções. Enviámos-lhes o terceiro rascunho e demorou algum tempo até que eles sentissem aquilo como um conjunto de temas. Voltámos a trabalhar um bocado mais em Israel, a continuar com a vibe que já tínhamos trazido de L.A.. Assim que terminámos o produto, que saiu na passada sexta-feira… Eu fiquei muito orgulhoso de como ele ficou.
Como é que vocês lidaram com o input da editora? Neste lado que vocês habitam, da música independente, é comum as editoras deixarem os músicos fazer o seu trabalho sem interferências. Mas eles deram-vos um input que acabou por alterar a direcção daquilo que vocês apresentam com este segundo álbum.
[Y.A.] Pois foi. O input deles foi muito bom, sabes? Nós gostamos de muitos géneros de música diferentes, então, para nós, tudo aquilo que soa a estranho e artístico encaixa. Só que eles precisavam de ajustar a coisa de modo a encaixar melhor no elenco deles, porque são uma editora que vem originalmente do hip hop e pode ser estranho editarem música instrumental de jazz semi-electrónico, a não ser que a coisa esteja mesmo, mesmo divertida — eu gosto muito de usar este termo para falar disso. Tem de ser música que te faz sorrir e sentir algo mais para além daquela coisa do “isto é interessante.” O input deles foi: “Isso está bom, mas não está assim muito claro. Podem tornar a vossa abordagem mais acessível?” E nós: “Claro que sim. Vamos tentar.” Levámos muito em conta aquelas palavras, até porque parte do incentivo foi: “Isto vai ajudar-vos a conseguirem maior exposição e a chegar a mais pessoas, ao invés de continuar apenas como uma coisa de nicho.”
[Nitai Hershkovits] Esta ideia agradou-nos imediatamente. Basta pensar em tudo o que nós escutamos. Como é que bandas como Radiohead e Pink Floyd chegaram até nós? Foi porque a música deles era acessível o suficiente. E foi nesse mesmo lado, do quão comunicativa é a música, que nós mergulhámos a sério. Por exemplo, os Air: há coisas deles que soam a playback, mas há sempre ali uma voz a cantar algo e nem importa muito o que ela está a dizer; é uma questão de mindset, de encarar a coisa como um “nós estamos aqui só para vocês se lembrarem de nós.” Esse tipo de raciocínio guiou-nos.
Achei curioso vocês terem descrito a Stones Throw como uma editora de hip hop. Eu acho que deve ser igualmente mencionada a ligação deles com a música psicadélica. Desde os vários projectos do Peanut Butter Wolf ao Madlib, não lhes faltam artistas que têm dado continuação a essa linguagem do psicadelismo, onde vocês agora também cabem. Eu diria que vocês estão perfeitamente em casa ao lançar este álbum pela Stones Throw.
[Y.A.] Tens razão. Existe esse ingrediente que interliga todos os elementos da editora — incluindo nós mesmos. Nós sempre estivemos muito inclinados para essa vibe colorida do psicadelismo que é capaz de te levar a viajar. É um tipo de som que soa a vintage e a moderno ao mesmo tempo.
[N.H.] É isso. Eu diria que o nosso primeiro álbum tem um estilo musical igual ao que um produtor de hip hop procuraria para samplar. Neste novo trabalho, nós evoluímos para uma banda que também podes samplar, mas que já é uma banda que consegue viver por si só, não tanto um som de nicho, mas mais acessível.
Para alguém que, como eu, rodou tanto o vosso primeiro álbum, tenho de dizer que foi uma grande surpresa escutar-vos a experimentar coisas que soam a Beatles, outras que soam a library music italiana… Pensei: “Esta malta está mesmo a aventurar-se!”
[N.H.] Totalmente! É mesmo essa a ideia.
Quanto deste disco é produto do facto de vocês se terem solidificado enquanto banda a tocar ao vivo? Vocês deram muitos concertos no período após o lançamento do Overstand?
[N.H.] Fizemos umas duas digressões diferentes. Foi difícil, porque havia o COVID-19… Cada um de nós também se envoveu noutros projectos. Então, foi uma questão de voltar a reunir a malta para nos focarmos neste trabalho. Diria que houve alguns espectáculos que demos — como no Egipto ou em Israel — que serviram para ensaiar este novo material e nos preparar para este alinhamento. Essa fase foi muito boa para que conseguíssemos entender melhor como é que as coisas funcionam para a o público. Eu lembro-me de, depois de um desses concertos, regressarmos a estúdio e dizer uns para os outros: “Aquela cena bateu mesmo durante o espectáculo!” Houve coisas que percebemos dessa forma e que nos levaram a adicionar novas camadas ao disco. Foi um período de laboratório, digamos.
[Y.A.] Mas, no geral, nós não demos muitos concertos. Não foram muitos, mas alguns deles significaram imenso. Principalmente os das digressões, em que pudemos sentir mesmo quais são as malhas que estão a ir numa boa direcção, para termos uma ideia melhor do que fazer ao regressar a estúdio. Mas aconteceu tudo tão rápido… Nós evoluímos para este tipo de banda, mais mutante, no espaço de um ano, diria eu.
E agora com o lançamento deste disco, já sentem a vossa agenda mais preenchida com datas ao vivo? Já sabem se vão tocar, por exemplo, na Europa?
[N.H.] Nós estamos a trabalhar com uma nova agência que gostou mesmo muito desta música. É a ATC. Eles trabalham com nomes bastante grandes. Nós estamos neste momento a apontar para uma digressão de apresentação do disco que vai de Setembro a Novembro. Durante esse período, temos como objectivo ir à Europa e aos Estados Unidos da América pela primeira vez.
Boa. Mas voltemos de novo ao álbum. Muito do que nós escutamos aqui é literalmente o que foi captado ao vivo ou vocês aplicaram alguns truques de produção à música que tinham? Isto é mais um resultado do que surgiu em estúdio ou assenta mais num processo laboratorial?
[Y.A.] Eu creio que não usámos assim tantos truques, para te ser sincero. Mesmo os temas em que não gravámos todos juntos, ouvíamos em playback e escrevíamos as letras e cantávamos por cima. A abordagem foi muito intuitiva. Nós não nos metemos a fazer coisas que não conseguimos tocar ao vivo. Diria que todos os instrumentais são 80% ou 90% resultado de gravações ao vivo com a banda toda presente, depois com pedaços de overdubs. Foi tudo feito para que não precisássemos de computadores ou de músicos adicionais.
Vocês sentem alguma ligação a toda uma nova onda de bandas contemporâneas que têm surgido com uma abordagem musical que parte de um ângulo muito idêntico ao vosso? Ontem, por exemplo, eu estava a gravar o meu programa de rádio, Notas Azuis, e coloquei uma faixa vossa a seguir a uma do Jake Ferguson, dos The Heliocentrics. Aquilo encaixou tão bem… E podia dar-vos exemplos de bandas do Canadá, Estados Unidos, Inglaterra, Israel, claro. Vocês sentem que essa cena existe?
[N.H.] Claro que sim. Há uma cena colectiva a acontecer, muito graças à Internet. O que o Yuval falava há pouco, de nós termos um som vintage… Isto é como a roupa ou a mobília em segunda mão. Tem aquela camada de significado extra. E sim: nós gostamos do Jake Ferguson e dos The Heliocentrics. Faz sentido que estejamos todos num mesmo barco, eventualmente. Eu tenho a certeza que eles nos escutam a nós, tal como nós os escutamos a eles.
A última pergunta que tenho para vos colocar acaba por ser inevitável, dado vocês estarem em Tel Aviv e conviverem de perto com tudo o que se está a passar em Gaza. Como é que vocês estão a lidar com a situação e qual a opinião que têm sobre esta guerra na Palestina?
[Y.A.] Isto é o pior que podia ter acontecido. Está a ser um inferno.
[N.H.] No comunicado que enviámos à imprensa, escrevemos que somos melhor a tocar do que a exprimir-nos por palavras. Estamos mesmo a tentar focar-nos em fazer isto enquanto desejamos pela paz e esperamos não ser atacados.
[Y.A.] É mesmo isso. A nossa casa está a ser invadida pelo mal e ele vem de todos os lados. Não há muito que possamos fazer a não ser espalhar a luz. Parece que toda a gente é violenta… É uma péssima altura para se estar em Israel. Mas é a nossa casa e não temos escolha. Só podemos tentar extrair o melhor que a situação possa permitir. E nós fazemos isso através do som, das frequências. Essa é a nossa contribuição.