O guitarrista André Fernandes voltou a dar à chave e ligou novamente o Motor, grupo que, originalmente, se estreou em disco em 2012, na Tone of a Pitch Records. Como nos explica André, parte importante do som desse grupo específico resultava do pianismo particular de Bernardo Sassetti. Naturalmente, essa específica equação ficou sem resolução possível a partir do desaparecimento de Bernardo, nesse mesmo ano de 2012. Um triste facto que ajuda a explicar porque só agora André Fernandes decide regressar a esse projecto, recrutando desta vez o pianista Miguel Meirinhos para se juntar ao baterista Marcos Cavaleiro, ao contrabaixista Demian Cabaud e ao saxofonista José Pedro Coelho. Ou seja, um refinado Motor com alguns dos melhores “componentes” activos na cena portuguesa.
Fernandes explica nesta entrevista — deixando soltas as pontas do mistério que ampara esta música — o que significa para si voltar agora com Motor II na sua Timbuktu Records, como decorreram as gravações deste projecto, o que significa no contexto da sua carreira e o que virá já a seguir.
Nova edição na tua Timbuktu, que é a continuação de um projecto e que, aliás, vem com uma sentida e mais do que merecida dedicatória. Fala-me lá deste novo projecto, desta segunda parte do Motor.
Na minha viagem aqui nos discos, o Motor foi, talvez, o grupo que mais trabalhou na altura. Isto estava ali entre 2010, 2012, e foi uma banda que eu acho que marcou, para mim, uma viragem naquilo que eu queria fazer. E foi um grupo super activo e o disco de estreia saiu em 2012. Na banda, uma parte fundamental do som do grupo, na altura, era o Bernardo Sassetti. Depois do desaparecimento do Bernardo eu parei, obviamente, o grupo. Ficou estagnado. Nem na altura pensava voltar a trabalhar com este grupo e parti para outras coisas. Entre essa altura e agora fiz uma espécie de um fim-de-semana de tributo ao Bernardo no Hot Clube, que está fechado agora. Gravámos ao vivo, fizemos algumas músicas desse grupo e ficou esse registo. Só que não pensei mais nisso. Entretanto, o bichinho de escrever música naquela estética voltou e comecei a pensar como é que poderia fazer isto, tendo em conta que, lá está, como eu tinha dito, uma grande parte da essência do grupo não só musicalmente, mas também pessoalmente, era o Bernardo. Mas achei que era a altura de voltar a escrever música daquele género e voltar a juntar-me com aqueles músicos nesta combinação, aqui com o aparecimento de um pianista que eu acho que é incrível, que é um rapaz muito novo do Porto, o Miguel Meirinhos.
Conheço-o, dos festivais da Porta-Jazz que eu tenho frequentado.
O Miguel foi assim… Há pianistas incríveis em Portugal, como é evidente, mas na estética daquele grupo, ao ouvir o Miguel e a começar a tocar com ele noutros contextos… Eu acho que também foi um bocadinho isso que me deu o ímpeto para voltar a fazer isto, porque achei que ele podia ocupar aquele lugar e podia fazer aquele papel, musicalmente, no grupo.
Não foi intimidante para alguém como o Miguel quando chegaste ao pé dele e lhe disseste: “Olha, há aqui o lugar que em tempos pertenceu ao Bernardo. Não queres preenchê-lo?” Como é que um jovem talento, como é o caso do Miguel, lida com uma missão destas?
O Miguel, no momento do convite, ficou muito contente e disse logo que sim. Óptimo. Depois, enquanto gravámos o disco, o Miguel estava em pânico [risos]. Eu acho que ele não se vai importar que eu diga isto, foi muito cómico. Mas ele tocou muitíssimo bem, eu estou super feliz com tudo o que ele fez. Mas o Miguel, ao intervalo de cada take, ou depois de acabarmos um tema e irmos ouvir alguns dos takes lá acima… O Miguel nunca foi, estava sempre lá fora, sempre a tentar limpar a cabeça [risos]. Houve ali um bocado de pressão. E o resto do grupo… Eu, o Damian, o Marcos e o Zé, somos um grupo super unido, tanto musicalmente como pessoalmente. Temos uma amizade e temos uma forma de lidar uns com os outros na música, que para quem vem de fora, de repente, pode ser um bocado intimidante. Somos todos um bocado brutos uns com os outros [risos]. Adoramos-nos, mas em relação à música somos muito directos ao assunto e a coisa tem que ir para aquele sítio. O Miguel caiu ali de repente de paraquedas no meio daquilo e eu acho que foi um bocado pesado para ele a sessão [risos]. Mas correu muito bem e ele fez um trabalho espectacular.
Tu mencionaste aí por duas vezes “música nesta estética”. Que estética é essa?
Não sei bem descrever. Foi aquilo que surgiu na altura… Eu estou sempre a fazer coisas muito diferentes umas das outras e pronto, está na minha natureza. Não há um plano, é o que me apetece. Mas naquela fase do Motor inicial, por alguma razão, a combinação daqueles músicos levou-me a escrever música que tinha… Daí também o nome do grupo, Motor, que tinha uma espécie de um drive ali muito específico. Havia uma energia… Mesmo que a música não fosse particularmente enérgica ou rápida, tinha sempre ali um peso, um empurrão constante. E o Bernardo era grande parte disso, era um impulsionador de um bom bocado do inesperado que acontecia, e foi isso que na altura me entusiasmou mais naquele grupo. Era o facto de, de repente e em qualquer concerto dos muitos que demos, nunca saber o que é que qualquer um deles ia fazer a seguir. E particularmente no caso do Bernardo era muito assim. Esse conjunto de música escrita com essa liberdade dentro da forma… Ou seja, nunca foi um grupo que fosse para a música livre ou música totalmente improvisada nem nada disso, pelo contrário. Mas a forma como a música escrita era tocada era muito livre e muito enérgica, tinha sempre ali uma espécie de… Estávamos sempre todos muito atentos, tínhamos de estar sempre alerta, musicalmente, e isso para mim sempre foi muito estimulante. Entretanto, quando o Motor parou, fui fazer outras coisas. Fiz outros discos com outros tipos de música, outras direcções que também me interessavam muitíssimo. Mas quando digo este tipo de música, é isso: uma música que pudesse ser tocada por este grupo, sabendo que esse espírito podia surgir a partir daquela música escrita. Para além de algumas componentes musicais específicas, certas coisas que fazem um bocado parte do som daquele grupo — certas construcções mais abstractas por cima de ostinatos muito pré-estabelecidos. O próprio som da bateria do Marcos foi muito trabalhado. Tanto no primeiro disco como neste, não é o tipo de som que ele costuma usar. Sempre o chateei muito com isso neste grupo, que ele tinha que afinar a bateria de uma forma completamente diferente, muito mais grave, com a tarola muito mais grave, uma coisa menos típica do jazz. Eu acho que essas componentes todas fizeram o som daquele grupo. Neste disco eu tentei ir buscar… Claro que não foi copiar aquilo que tínhamos feito, mas fazer um disco que pudesse ser ouvido ao lado do outro e perceber-se que é o mesmo grupo com a mesma direcção.
Como é que tu partilhas as tuas composições com os teus companheiros? Gravações, pautas com indicações? Qual é o teu método, no caso deste grupo?
Há duas formas — a deste disco e a do primeiro. Neste grupo escrevi sempre a música antes e foi um processo mais ou menos convencional, de marcarmos ensaios, eu apresentar a música escrita. Mas, pelas coisas que eu falei antes, neste grupo houve sempre muito espaço para depois manipular aquilo que estava lá — a forma como as coisas estavam escritas e como elas iam ser tocadas. Isso aconteceu muito no primeiro disco. Incluindo, fui muitas vezes ao Porto para trabalhar a coisa, principalmente o som de bateria e o tipo de abordagem do Marcos no primeiro disco. E neste foi um bocadinho diferente, no sentido em que foi um bocado… Eu decidi que queria fazer isto, e para me obrigar — porque eu tenho mil coisas para fazer o tempo todo, estou sempre a fazer coisas diferentes, não só música, mas outras coisas também — a pôr um prazo, então marcámos concerto e gravação no Porto, antes sequer de eu ter uma nota escrita. Marcámos o concerto para a Porta-Jazz e a gravação no dia a seguir. Portanto, neste disco, sabendo que tinha esse prazo, comecei a escrever. Às vezes passo meses e meses sem escrever uma nota de música e depois posso passar uma semana em que escrevo um álbum. Foi o caso deste. Escrevi tudo de seguida, a coisa foi fluindo nesse sentido — felizmente, porque se não tinha sido um fiasco irmos lá para cima e não haver música [risos]. Correu bem. E foi isso. Cheguei ao Porto, ensaiámos na manhã do dia do concerto da Porta-Jazz, o que colocou assim um bocado de pressão, inclusive para mim mesmo [risos]. Mas eu acho que estava toda a gente tão focada e tão empenhada naquilo, e já com a bagagem do disco anterior e com a estética do disco anterior, que eu acho que foi tudo muito natural a forma como o pessoal agarrou a música e sabia o que é que eles podiam fazer com aquilo. Fizemos o primeiro concerto, e único, na Porta-Jazz nesse mesmo dia e no dia a seguir fomos para estúdio gravar o disco.
Estava a gravar o programa de rádio Notas Azuis e estava a mencionar que o Demian Cabaud toca no teu disco e toca no disco que eu toquei antes, que é um lançamento da Porta-Jazz recente do Miguel Rodrigues. Nós vamos vendo estes nomes todos — o teu, o do Zé, o do Demian… — a rodar em vários projectos. O que é que, na tua opinião, faz com que estas pessoas, que às vezes parecem cruzar-se de forma aleatória, formem um grupo? O que é que te leva a dizer “isto tem espírito de um grupo?”
Existe uma diferença, claro. Olha, eu dou-te um exemplo: o concerto de lançamento do Miguel Rodrigues, que tu mencionaste agora, cujo disco foi gravado pelo André Matos. Como o André não está cá e o concerto de lançamento foi em Viseu, agora há umas semanas, eu fui tocar. Isso não é um grupo, não é? Eu fui lá no próprio dia, sem ensaio — ouvi o disco antes, claro — e fizemos o concerto. Adorei, mas é diferente. A sensação é completamente diferente de um grupo como, por exemplo, o Motor. Eu acho que isso é difícil de explicar, é um bocado como as relações pessoais. Quando tu descobres músicos com quem, ao tocar, percebes que estás à procura da mesma coisa da música — daquilo que é suposto acontecer, daquilo que tu queres ouvir e daquilo que queres que a outra pessoa faça enquanto tu tocas —, dá-se um clique que tu percebes. Automaticamente, percebes que há ali uma soma das partes que cria um todo melhor do que se isso não existisse. Não quer dizer que, não existindo, não possa existir um bom concerto ou até um bom disco, seja o que for, mas é um bocado… A história do jazz está cheia disso, não é? Há milhares de músicos de jazz e vemos que a maioria deles, pelo menos durante determinadas fases da vida, tocam sempre com os mesmos — o pianista é sempre aquele, o saxofonista é sempre aquele, ou existe um pequeno grupo de duas ou três opções. Claro que se podia chamar para cada disco um tipo diferente, e podiam ser todos incríveis, mas provavelmente, nessas situações, o que acontece é isso, é esse clique. Seja pela secção rítmica, em que sentes que a subdivisão do tempo é sentida da mesma maneira, seja pela abordagem da interpretação da harmonia, que pode ser mais fechada, pode ser mais aberta, mais interactiva ou menos interactiva. Isso depende da conjugação de músicos, faz toda a diferença. E de repente podes passar de uma coisa que é boa para uma coisa que está num outro patamar de interacção e de vida. No caso do Motor especificamente, sempre senti isso e daí ter sido um grupo que foi marcante na minha carreira. Tem muito a ver com isso, porque tudo aquilo que eu quero e aquilo que eu não quero ouvir na música é idêntico àquilo que o Marcos, o Zé e o Damian querem também da música. E também o Bernardo na altura, e o Miguel também, assim que ele encaixa nesse espírito. Acho que essa é a grande diferença.
Qual é a tua relação com os títulos? São todos títulos em inglês excepto um. Isso são coisas aleatórias ou há sempre uma explicação para cada um deles?
Nem sempre há explicação. Há um outro grupo que eu tenho, que é o Centauri, que editei também no ano passado outro disco, que é o Hades. Nesse grupo, os títulos das músicas estão todos sempre relacionados com qualquer coisa e a música, de alguma forma, pelo menos se a pessoa quiser ouvir a música a pensar nesse universo, remete para esses assuntos ou esses nomes. Cada disco é pensado num determinado universo. Temos três discos — um tem uma temática à volta da astronomia, dos astros, do espaço; o segundo anda à volta do bestiário tradicional português, da mitologia, de personagens do universo fantástico e de terror tradicional português; este disco mais recente foca-se em parte da mitologia grega, que são tudo assuntos que eu gosto, que me interessam e que fazem parte dos meus interesses. Nos outros grupos, às vezes têm, sei lá… Posso dar um exemplo: há um tema, “Rabbit Hole”, num disco meu que se chama Dream Keeper. É um tema circular. Todos os músicos com quem toquei até hoje, na primeira ou segunda volta que dão ao tema, a meio do tema já estão perdidos, já não sabem onde é que estão. Aquilo é uma coisa circular, meio labiríntica, e tem uma lógica que só depois da pessoa conhecer a música é que se consegue antecipar o que vem a seguir e perceber. Não tem cadências tradicionais, resoluções, nada disso. E o “Rabbit Hole” vem daí, tem um bocado a ver com a música. Mas muitos outros, para ser totalmente honesto e pouco romântico em relação a isso, são coisas que me surgem. Pode ser qualquer coisa que eu estou a pensar na altura ou qualquer coisa que li há pouco tempo, ou algo que me surgiu espontaneamente e eu escrevo. Pode ser uma palavra. Excepto no Centauri, eu não vejo muito… Se calhar sou um bocado um cepo nestas coisas, não sei [risos].
Não, não. É a tua cena. Eu acho que a música pode ter um grande conceito ou conceito nenhum. Há quem dê às músicas títulos de “I”, “II”, “III”, “IV”, “V”…
Claro. Para mim, dentro da música há sempre coisas que eu consigo dizer, ou descrever alguma coisa que, mesmo que eu não tenha pensado antecipadamente, acaba por surgir na música. Mas eu nunca relacionei muito a música com outras artes ou outros assuntos, exceto no Centauri. Escrever um tema porque estou a pensar na natureza ou porque estou a pensar num poema é uma coisa que eu não costumo fazer. Não consigo fazer essas ligações. Música é música, é som.
É música sobre música, não é música sobre natureza ou sobre literatura.
Sim, sim. Às vezes é difícil, quando me pedem, em circunstâncias aleatórias, para escrever coisas sobre a música. “Agora descreve-me isto aqui.” Isso é muito difícil para mim, descrever o som. É uma coisa tão etérea. A não ser que haja realmente qualquer coisa por trás pensada antecipadamente — como, lá está, no caso de alguns desses discos de Centauri —, a música é para ser ouvida, não é para ser nem rotulada nem descrita. Ela pode ser, mas eu acho que isso depois também tira um bocadinho o espaço à pessoa que ouve, tira um bocado o mistério que possa surgir sobre a música, que eu acho que é super importante, mesmo como ouvinte. Eu não quero saber tudo sobre o que está por trás daquela música. Às vezes, a parte dos músicos… Eu sou fã de saber as histórias por trás de como é que foi gravado aquele disco, ou o que é que aquele músico usa para isto — isso é interessante. Mas sobre a parte mesmo da música, o que é que está por trás, conceptualmente, de forma abstracta, muitas vezes prefiro não saber, porque acho que posso ter a minha interpretação daquilo que é e tornar aquilo mais meu do que se tiver a apropriar-me de uma coisa que já está totalmente descrita e dissecada pelo próprio autor.
De apresentações ao vivo deste projecto, o que é que está para aí planeando?
Estamos a planear, em Setembro, fazer um concerto no CARA – Centro de Alto Rendimento Artístico da Orquestra Jazz de Matosinhos. Vamos fazer um concerto de apresentação no Porto, vamos fazer um em Famalicão, e estou a tentar fechar Coimbra, provavelmente no Salão Brazil. E queria fazer a mesma espécie de itinerário mais a sul, passando aqui por Lisboa, mas não sei muito bem ainda o que fazer ou onde. Com a ausência do Hot Clube, que seria o ideal e faz muita falta, nas outras salas se calhar só para o ano é que eu consigo datas [risos]. Portanto, não estou a ver que vá acontecer, mas ainda estou a ver. Pelo menos essas do Norte estão marcadas.
E de resto, como é que vai ser o falta deste ano? Tu, que como começavas por mencionar, estás sempre mega, mega, mega ocupado com mil projectos.
Pá, este ano eu decidi pôr um bocado um travão, porque o ano passado foi um bocado uma loucura. No ano passado editei um disco de Foca, com o Mário Laginha, o Zé Pedro Coelho, o João Hasselberg e o João Pereira. Editei o Hades de Centauri. Gravei este disco de Motor. E tive também o lançamento de Fushi, outra banda que tenho que não é de jazz. Para além destas coisas tenho um estúdio onde trabalho, faço misturas de discos para outras pessoas, abri a associação Timbuktu o ano passado com a editora… Este ano decidi que tenho de fazer menos [risos]. E há uma coisa que está pendente há muito tempo, que é o meu disco a solo, é um projecto que eu chamo Uniteto, com que tenho feito alguns concertos — fiz no ano passado no São Luz, lá fora na rua, num ciclo de Verão que eles tiveram; tenho feito outros concertos mais pequenos para testar a coisa. É um projecto em que estou sozinho, mas toco uma guitarra às vezes muito processada, outras vezes não, voz processada, laptop com o Ableton a funcionar, sampling em tempo real, coisas pré-programadas, teclados, etc. Portanto, o meu plano este ano é, a não ser que me passe outra coisa pela cabeça e de repente gravo outro disco qualquer pelo meio [risos], focar a minha atenção nesse disco a solo. Queria mesmo fazer isso. Se fizer isso este ano já fico contente, do ponto-de-vista da minha discografia — é claro que outras coisas de certeza que vão acontecer.