Transladação. Inicialmente previsto para o pátio exterior do gnration, o concerto de André Carvalho – Lost in Translation, no âmbito do julho é de jazz acabou por ter lugar na sala de concertos. Ameaça de chuva, foi a justificação, mas que só se concretizou, a chuva, algumas horas mais tarde, acabando por enfatizar as cores de Braga. Cai-lhe bem. Poderia ser prenúncio auspicioso para a apresentação de Lost in Translation Vol. II (2023, Clean Feed).
O trio constituído por André Carvalho (contrabaixo), André Matos (guitarra) e José Soares (saxofone), propões aos espectadores presentes, em número bem inferior ao da véspera, uma viagem planetária através dos termos intraduzíveis, na linha do que vêm sendo as suas preocupações enquanto músicos e curiosos sobre estes termos. Materializadas nos discos Lost in Translation Vol. I e no já mencionado Lost in Translation Vol. II. Se o ponto de partida se revela minimamente interessante, pelo menos no campo das curiosidades, a sua concretização ao vivo mostrou-se algo débil, pouco convincente, tendo a noite caminhado numa toada confortável e avessa ao risco. Num exercício de autoconsciência, mais ou menos extenso, poderíamos pensar que as marcas do concerto de Marc Ribot’s Ceramic Dog, do dia anterior, tinham sido suficientemente profundas. Assim foi, mas independentemente de qualquer comparação, prática sempre estéril e enfadonha, a impressão que se guarda é de jazz com tempos demasiado correctos, para tempos que exigem outras abordagens.
No intervalo entre um conjunto de temas, André Carvalho preocupa-se em explicar um termo e a sua possível tradução, seja ele em sueco, finlandês ou noutro idioma. Termos mais ou menos universais, transversais à condição humana e respectiva relação com a natureza. Para além de breve, também aqui, a explicação carece de profundidade. Descritiva na maior parte das vezes, mas sem se estabelecer um conjunto de correlações entre cada um, respectivas diferenças e uma possível correspondência em português. Musicalmente a tradução é perdição. O que distingue um termo do outro? Como se materializa num tema? Que experiências e possíveis apropriações já se deparou o autor? Que situações de incomodidade já lhe causaram? Citando Bohumil Hrabal – “Viver para contar.”
O automatismo do percurso. O medo do desencontro. A homógrafa como possível solução, numa tentativa de compreender as tensões que podem surgir quando a mesma palavra assume diferentes significados, dependendo dos emissores e receptores ou do seu contexto.
Marchar. Marchar.
Este fim-de-semana, dias 13 e 14, o julho é de jazz recebe concertos de João Lencastre “Free Celebration” e Kaja Draksler + Susana Santos Silva, respectivamente.