Criolo, Dino D’Santiago e Amaro Freitas colaboraram pela primeira vez em “Esperança”, single lançado no final da semana passada.
O tema foi produzido pelo veterano Nave, um dos pilares na criação dos beats que alimentam o hip hop brasileiro e colaborador frequente de Marcelo D2, Emicida, BK ou Don L. Em jeito de manifesto, os três artistas intérpretes fazem da herança negra e do elo lusófono um super-poder contra a desigualdade e a repressão, ao mesmo tempo que evoca a liberdade e o desejo de honrar as lutas e sonhos dos seus ancestrais — Criolo e Dino através das palavras e da voz, Amaro Freitas em fraseados de piano.
Num comunicado, o rapper de São Paulo elevou a importância que teve trabalhar com dois criativos tão especiais numa faixa:
“Essa canção é uma grande celebração de encontro desses artistas magníficos. Dino D’Santiago é uma personalidade mundial, é uma pessoa que tem uma importância muito grande em seus países, uma pessoa que propõe levar a cultura de Cabo Verde para o planeta, além de ser um grande poeta e uma voz inconfundível que emociona a todos. A gente consegue provocar esse encontro com Amaro Freitas, que é um fenômeno brasileiro, mais um brasileiro do nordeste levando uma música tão especial, um tipo de mistura de alma com sonoridade e com o chão de Pernambuco”.
Já Amaro Freitas, pianista de Recife que este ano editou o álbum Y’Y e passou por Lisboa (em Julho podem apanhá-lo em Braga no Julho é de Jazz’24), aceitou trocar algumas impressões à distância com o Rimas e Batidas, breve conversa que podem ler já de seguida.
Como aconteceu este encontro entre você, Dino e Criolo? Gravaram separados, estiveram juntos?
Esse encontro com Dino e com Criolo, a gente gravou separado. Primeiro o Criolo teve um encontro com Dino. Acredito que ele gravou a partir de São Paulo e o Dino de Portugal. Depois é que essa música chegou para mim. Eu coloquei um piano, troquei uma ideia com o Criolo sobre essa parte. Aí essa música foi gravada, e o Nave, que é produtor do Criolo nesse trabalho, teve algumas ideias depois. A sonoridade ainda ganhou novos tons. E ainda depois de tudo isso, eu, o Criolo e o Dino nos encontrámos em São Paulo. Porque eu fiz o lançamento do meu disco no SESC Pompeia, o Dino estava tocando com a Luedji Luna e o Criolo mora em São Paulo, ia para um evento do Corinthians. Aí a gente almoçou e foi o primeiro encontro de nós três juntos. Foi muito incrível, muito bacana. Com certeza eu ganhei um novo irmão. Além de eu já ter um que é o Criolo, ganhei um irmão Dino D’Santiago.
A mensagem deste tema é especial. Fala de esperança e de memória dos ancestrais, de superação. Palavras importantes num presente não complexo. Essas palavras inspiraram o seu solo?
Com certeza. Essa mensagem inspira o meu trabalho a solo. Quando você pensa na construção do meu disco Sankofa, sobre ancestralidade, sobre conexão ancestral, sobre memórias que não foram construídas no período da infância, sobre temas, personagens e símbolos que eu gostaria de ter aprendido para ter essa auto-estima de um homem negro. Aqui, no Brasil, não se estuda sobre Tereza de Benguela, sobre herança africana… O ensino, na escola, não tem esse olhar para a cultura africana como um lugar de potencialidade, de posicionamento, de herança… Enfim. Para mim, o trabalho autoral que venho desenvolvendo tem tudo a ver com esses temas de esperança, de ancestralidade, dessa conexão que atravessa o Atlântico, que liga Portugal a Cabo Verde, mas também a São Paulo, entendendo o poder dessa ligação diaspórica da arte. Mesmo estando tão distante de Criolo e de Dino, através da arte podemo-nos conectar e, juntos, podemos fazer aquilo que viemos fazer no mundo — beleza.
Vamos poder ouvir esse tema em palco algum dia?
Espero muito que a gente toque essa música nos palcos. Eu acredito que está todo o mundo muito empolgado, porque o lançamento está tendo um feedback positivo. Acredito que sim, que a gente vai levar essa música para os palcos.
É, se não estamos enganados, a sua primeira colaboração com um artista português. Virão outras?
Sim, essa foi a minha primeira colaboração com um artista português. Da última vez que estive em Portugal, fiquei um tempo em Lisboa e pude conhecer os músicos do Fogo Fogo, a Aldina Duarte, uma grande cantora de fado. Foi a primeira vez que eu assisti a um espectáculo de fado. E eu acho que cada vez que eu estiver mais tempo em Portugal, vou procurar conhecer e colaborar com artistas portugueses. Isso só vai ser bom para mim, porque é um lugar que fala duma cultura muito particular e que dialoga com vários outros lugares da língua portuguesa. É ver como o Dino D’Santiago leva essa literatura, esse conhecimento para esse território de Cabo Verde, com essa língua crioula e vários outros elementos. Eu acho fantástico isso. Tem um outro lugar da expansão da língua portuguesa. Eu me sinto extremamente curioso para estar mais tempo em Portugal e dialogar com outros artistas portugueses. Tem aí um Freddy que já está na hora de a gente se conhecer e que quase deu certo mas não rolou [risos]. Acredito que tem muita coisa, muito pano na manga para rolar com artistas de Portugal.