Legado: aquilo que se deixa por testamento a quem não é herdeiro forçoso ou principal; o que é transmitido a outrem que vem a seguir. Esta introdução “patrocinada” pelo Priberam fala-nos sobre aquilo que para muitos dos nossos concidadãos é um objectivo de vida: deixar algo que fique neste mundo depois do corpo o deixar. É tarefa árdua, obsessão para alguns e inevitável para outros, que são apelidados de génios pelos seus contemporâneos ou por quem vem depois. A ideia de algo imortal é aliciante, enganar a morte ao viver na memória dos outros. E seja por acidente ou de forma propositada, James Olaloye tem mostrado que tem algo a dizer sobre essa ambiciosa ideia.
O artista britânico mais conhecido como Jim Legxacy tem vindo a trilhar um percurso digno de análise e elogios. Sediado no sudeste londrino, é a partir de lá que constrói músicas aliciantes que ziguezagueiam por vários mundos de uma galáxia sonora que Olaloye torna sua. O primeiro single surge em 2019, “Willyoustabmeinmyheart”, onde há espaço para a suavidade no meio de um trap dilacerante. Esse veludo soa na guitarra, que traz uma leveza ao refrão e rivaliza a intensidade cortante das estrofes. Alterna entre a cantoria e as barras de forma orgânica, e a dualidade do beat mostra uma ambição que se estende para além de um simples banger.
Podia ser caso isolado, mas (felizmente) não é e a prova surge logo no seu EP de estreia, Dynasty Program: A Metrical Composition Inspired by the Nights Spent As the Raiider. O título é uma mão cheia mas também os temas que o compõem. Caminham entre o hip hop, o r&b e o rock, nada estranho tendo em conta que Legxacy refere ter como influências na sua música artistas como JPEGMAFIA, MF DOOM, Bon Iver, Frank Ocean, SZA e Kendrick Lamar. As canções são compostas por várias camadas, é epiléptico e, não sendo obrigatoriamente exploratório, sentimos que experimenta com muita coisa. Produzido, cantado e declamado pelo próprio, a estreia de Legxacy é semelhante a ver um chef acertar numa receita que nunca fez antes. Ainda que a apresentação não seja totalmente limpa e esteticamente imaculada, ouvimos que não faz nada a meio-gás e avistam-se estrelas Michelin num futuro próximo.
Dynasty Program… é multívolo, um trabalho que revela uma maturidade incomum para um jovem de apenas 20 anos. E o projecto que seguiu, CITADEL, é uma sequela em que Legxacy mostra um talento mais condensado. Está sempre presente o seu excelente ouvido para a produção musical, ainda que neste projecto as barras sejam mais secundárias. Em “corpses (!)” e “anubis kruger” alia a agressividade do drill a uma introspecção sentida sobre alguns dos problemas que o assolam. Mas a saudade dançável de “ghost recon” ou o clamor de cordas da curta “the day i broke my bike” mostram uma espécie de ternura pós-traumática. A voz cantada passa a ser a sua ferramenta principal.
É essa voz aguda, tremida e carregada de emoção que nos recebe em “dj”, o primeiro tema do mais recente álbum de Jim Legxacy, homeless n*gga pop music. A guitarra tristonha que acompanha a voz augura um tema muito diferente daquele que acaba por se desenrolar. A surpresa é chave numa canção que tanto tem de emo rock como de drill, e que nos convida instantaneamente a descobrir mais deste artista. Em “block hug”, há uma honestidade mordaz aliada a uma junção curiosa entre trap e folk, e “candy reign” mostra que os espinhos depressivos escondem uma sorridente rosa açucarada, entregue por um produtor que sabe exactamente como transformar um sample. São alguns dos temas que compõem um álbum hiperactivo, em que a guitarra é base para todo o tipo de música, ricamente produzida e acompanhada por percussão fresca, multifacetada e convidativa.
É sempre uma tarefa ingrata apostar sobre o legado de um artista, especialmente alguém como Jim Legxacy, que se encontra em tão tenro início de carreira. A sua versatilidade permite aferir que a sua música ainda tem muito por onde evoluir e que poderá explodir não só na sua própria carreira mas também pelas suas valências enquanto produtor e no que isso pode trazer para a mesa de outros artistas. Sugerimos então guardar as previsões e apostas para quando a última nota se fizer soar. Ou como disse em tempos João Pinto, antigo jogador do FC Porto: “prognósticos só no fim do jogo”.